Dr. Rogério Silva, médico cardiologista e cardionutrologista
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Jarra de agua, prato de aveia com frutas e colher sobre bancada de cozinha clara em luz natural, cena sobre fibra e hidratacao no manejo do intestino durante o tratamento
Emagrecimento

Diarreia e intestino preso durante o tratamento

Diarreia e intestino preso durante o tratamento

Uma das coisas mais confusas desse tratamento é que ele produz queixas opostas. A mesma medicação, na mesma dose, solta o intestino de uma pessoa e prende o da outra. E há quem alterne entre as duas coisas dentro do mesmo mês, o que costuma gerar a suspeita de que algo está errado.

Não está. As duas queixas saem do mesmo mecanismo, e entender isso é o que permite ajustar a rotina em vez de ficar procurando explicação.

O que você vai encontrar aqui

  • Com que frequência cada uma das duas aparece, com o número do ensaio clínico.
  • Por que o mesmo remédio pode causar efeitos opostos em pessoas diferentes.
  • O que ajusta cada quadro, incluindo o que costuma ser feito errado.
  • Os sinais que tiram o intestino da categoria "desconforto" e pedem avaliação.

O objetivo é bem concreto: fazer você reconhecer o que está acontecendo e saber o que levar para a próxima conversa com quem acompanha o tratamento.

Diarreia e intestino preso: os números do ensaio

No SURMOUNT-1, ensaio que testou a tirzepatida em 2.539 adultos com obesidade e foi publicado no New England Journal of Medicine em 2022, os dois efeitos aparecem lado a lado na mesma tabela.

Diarreia ocorreu em 18,7% dos participantes na dose de 5 mg, 21,2% na de 10 mg e 23,0% na de 15 mg. Constipação, no mesmo estudo e nas mesmas doses, apareceu em 16,8%, 17,1% e 11,7%. Vômito ficou em 8,3%, 10,7% e 12,2%.

Repare no que os números dizem quando lidos juntos. Cerca de um em cada cinco participantes teve diarreia, e cerca de um em cada seis teve o intestino preso. São grupos diferentes de pessoas dentro do mesmo estudo, tomando o mesmo medicamento. E, como o resto dos efeitos digestivos, ambos se concentraram no período de aumento de dose e foram em geral de intensidade leve a moderada.

Por que o mesmo remédio faz as duas coisas

A medicação atua na velocidade com que o conteúdo caminha pelo tubo digestivo. Ela não tem um único endereço, atua em vários pontos, e o resultado depende de onde o efeito pesa mais em cada pessoa e do que mudou na alimentação.

O caminho da prisão de ventre costuma ser este: o trânsito fica mais lento, a pessoa come bem menos volume do que comia, come menos fibra porque come menos de tudo, e bebe menos água porque a sede também diminui. Menos volume, menos fibra e menos água formam um bolo fecal pequeno e ressecado, que se move devagar. Nenhum desses quatro fatores sozinho prenderia o intestino. Os quatro juntos prendem.

O caminho da diarreia é mais heterogêneo. A alteração da motilidade em outros trechos do intestino, a mudança abrupta no tipo de comida, o aumento de adoçantes e produtos dietéticos que muita gente adota ao mesmo tempo em que começa o tratamento, e a gordura que passa mais rápido do que deveria por certos trechos. Cada uma dessas explica parte dos casos.

E existe a situação que engana quase todo mundo: a diarreia que é sintoma de intestino preso. Quando há fezes endurecidas paradas, o que consegue passar em volta delas é líquido, e a pessoa relata diarreia estando constipada. Tratar isso como diarreia piora o quadro, e é uma das razões para não decidir sozinho em casa.

O que ajusta cada um dos dois

Para o intestino preso, a ordem importa. Não adianta acrescentar fibra sem acrescentar água antes.

  • Água primeiro, distribuída ao longo do dia. Fibra sem líquido endurece o bolo em vez de amolecer.
  • Fibra depois, e de forma gradual. Aumento rápido de fibra em um intestino lento produz estufamento e gases, não movimento.
  • Movimento do corpo, mesmo pouco. Caminhada curta depois das refeições ajuda o trânsito de um jeito que nenhum alimento reproduz.
  • Horário fixo para o banheiro, sem pressa. O reflexo intestinal responde à rotina, e ele se perde quando a pessoa passa semanas ignorando o chamado.
  • Nada de laxante por conta própria de forma contínua. Uso pontual é uma coisa, uso diário sem orientação vira dependência do estímulo e mascara a evolução.

Para a diarreia, o raciocínio é quase inverso.

  • Menos gordura e menos fritura por alguns dias, porque é o que mais acelera o trecho final.
  • Atenção a adoçantes que terminam em "ol", como sorbitol, maltitol e xilitol, comuns em produtos zero e conhecidos por soltar o intestino.
  • Hidratação com sal e não só com água, porque na diarreia se perde eletrólito junto com líquido.
  • Reintrodução gradual de alimentos, em vez de dieta restritiva prolongada, que costuma prolongar o problema.
  • Registro de quantas vezes ao dia e por quantos dias. É esse número, e não o adjetivo, que orienta a decisão de quem acompanha.

Em ambos os casos, quando o ajuste não resolve, a saída habitual não é abandonar o tratamento. É segurar a dose atual em vez de subir no mês seguinte, decisão que pertence ao médico e cujo raciocínio está em dose e titulação individual.

Quando o intestino deixa de ser desconforto

Aqui está a parte que não deve ser suportada em casa.

  • Diarreia com sinais de desidratação: boca seca, urina escura, tontura ao levantar, fraqueza. É por esse caminho que o tratamento pode chegar a comprometimento renal, sobretudo em quem já tem alteração de rim ou toma remédio para pressão.
  • Sangue nas fezes ou fezes pretas e com odor forte. Nenhum dos dois entra na lista de efeitos esperados dessa medicação e ambos pedem investigação.
  • Prisão de ventre com barriga distendida, dor e vômito. Essa combinação levanta a suspeita de obstrução e é avaliação de urgência, não de próxima consulta.
  • Diarreia com dor forte no alto da barriga que atravessa para as costas. Esse conjunto tem conduta própria, descrita em pancreatite e caneta emagrecedora.
  • Febre junto com qualquer um dos dois quadros. Sugere causa infecciosa somada, e o fato de estar em tratamento não exclui virose nem intoxicação alimentar.

Vale ainda um lembrete que passa despercebido: com o intestino alterado, a absorção de outros medicamentos pode mudar. Quem toma remédio de janela estreita precisa considerar isso, assunto tratado em interação com outros remédios.

E a regra que atravessa o tratamento inteiro: todo efeito colateral deve ser informado ao médico responsável, inclusive o que passou sozinho. Três dias de intestino preso que se resolveram parecem irrelevantes e não são. São eles que mostram se a próxima dose deve subir.

Dr. José Rogério da Silva, CRM-SP 172.346, RQE 78622.

O essencial

  • Diarreia apareceu em 18,7% a 23,0% dos participantes do SURMOUNT-1, conforme a dose, e constipação em 11,7% a 17,1%, no mesmo estudo com 2.539 adultos.
  • Os dois efeitos saem do mesmo mecanismo, a mudança na velocidade do trânsito digestivo, e o que decide o lado é a pessoa e o que mudou na alimentação.
  • Prisão de ventre costuma somar quatro fatores: trânsito lento, menos volume, menos fibra e menos água.
  • Diarreia que aparece em quem está constipado pode ser o líquido passando em volta de fezes endurecidas, e tratar como diarreia piora.
  • Água antes de fibra resolve boa parte da constipação, e reduzir gordura e adoçantes resolve boa parte da diarreia.
  • Sangue nas fezes, desidratação, febre ou barriga distendida com vômito não são efeitos esperados e pedem avaliação.
  • Todo efeito colateral deve ser informado ao médico que acompanha, mesmo o que passou sozinho.

O que ainda está sendo estudado

A pergunta em aberto não é se esses efeitos acontecem, é por que a mesma dose produz quadros opostos em pessoas diferentes. A microbiota intestinal é a principal suspeita, e há linhas de pesquisa acompanhando como ela muda ao longo do tratamento e se essa mudança prevê quem terá diarreia e quem terá constipação.

Se essa previsão ficar viável, a orientação alimentar deixa de ser genérica e passa a ser desenhada antes do primeiro sintoma, em vez de corrigida depois dele. Por enquanto, o que existe é o ajuste feito com base no que a pessoa relata, e é por isso que o relato importa tanto.

Nada aqui substitui uma consulta. Cada caso tem história, exames e outros remédios em uso, e é isso que decide a conduta. O panorama completo dos efeitos dessa fase está em efeitos colaterais da caneta emagrecedora.

Perguntas frequentes

A caneta emagrecedora causa diarreia ou prisão de ventre?

Pode causar as duas, em pessoas diferentes e às vezes na mesma pessoa em momentos distintos. No SURMOUNT-1, com 2.539 adultos, diarreia apareceu em 18,7% a 23,0% conforme a dose e constipação em 11,7% a 17,1%. Ambas se concentraram no período de aumento de dose e foram em geral de intensidade leve a moderada.

Por que fiquei com o intestino preso se estou comendo melhor?

Porque comer melhor não é a mesma coisa que comer volume suficiente. Com o apetite reduzido, a quantidade total cai, a fibra cai junto e a sede diminui. Trânsito mais lento, menos volume, menos fibra e menos água formam um bolo pequeno e ressecado. A correção começa pela água e só depois pela fibra, nessa ordem.

Posso tomar laxante por conta própria?

Uso pontual é diferente de uso contínuo. Laxante diário sem orientação cria dependência do estímulo e mascara a evolução do quadro, o que atrapalha a decisão sobre a próxima dose. Se a constipação não cedeu com água, fibra gradual e movimento, o passo é falar com o médico que acompanha antes de estabelecer uma rotina de laxante.

Diarreia durante o tratamento pode fazer mal ao rim?

Pode, e é por esse caminho indireto que o risco renal aparece. A diarreia leva à desidratação, e a desidratação é o que compromete o rim, sobretudo em quem já tem alteração renal prévia ou usa medicação para pressão. Boca seca, urina escura e tontura ao levantar são os sinais de alerta, e nesse cenário o contato com o médico é no mesmo dia.

Preciso avisar meu médico se o intestino desregulou e voltou ao normal sozinho?

Sim. Efeito que passou sozinho parece irrelevante e é justamente o que compõe o quadro que orienta o próximo ajuste de dose. Anote quando começou, quantos dias durou e o que tinha mudado antes, porque essa informação vale mais na consulta do que a descrição do desconforto.

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