
Exercício durante o tratamento: o que preserva músculo
Dr. José Rogério da SilvaMédico cardiologista · CRM-SP 172.346 · RQE 78622Publicado em 24 de setembro de 2026Exercício durante o tratamento: o que preserva músculo
Quando o assunto exercício entra na consulta de emagrecimento, quase sempre entra pela porta errada: quantas calorias aquilo queima.
É a pergunta menos útil possível. Uma hora de caminhada gasta menos energia do que a maioria imagina, e é fácil desfazer esse gasto com um lanche distraído. Se o valor do exercício fosse esse, ele seria um mau negócio.
O valor é outro, e fica evidente justamente quando existe uma medicação reduzindo o apetite. O tratamento decide quanto de peso sai. O exercício, sobretudo o treino de força, decide o que sai.
O que você vai encontrar aqui
- Por que gasto calórico é o argumento mais fraco a favor do exercício nessa fase.
- O que a evidência mostra sobre treino de força e preservação de massa magra em déficit energético.
- O que aconteceu num ensaio que comparou exercício, medicação e os dois juntos.
- Como encaixar isso na vida de quem não tem rotina de academia, e o que avisar ao médico.
Ao fim você vai saber por que a pergunta certa não é quanto tempo de esteira, e sim quantas vezes por semana houve carga.
Exercício durante o tratamento: o problema não é queimar caloria
Toda perda de peso significativa leva junto alguma massa magra. Não é característica da medicação, é característica do processo.
No subestudo de composição corporal do SURMOUNT-1, com 160 participantes avaliados por densitometria até a semana 72 e publicado em Diabetes, Obesity and Metabolism em 2025, o peso caiu 21,3%, a massa gorda caiu 33,9% e a massa magra caiu 10,9%. Cerca de um quarto do que saiu não era gordura, e a proporção foi parecida no grupo placebo, que emagreceu com orientação de estilo de vida.
Esse um quarto é o alvo do exercício. O detalhamento de por que isso importa está em perder peso e perder músculo não são a mesma coisa.
E existe uma segunda razão, que aparece depois. Menos músculo significa menos gasto energético de repouso, e é uma das engrenagens que explicam por que a dieta para de funcionar. Proteger músculo agora é proteger o resultado daqui a dois anos.
O que o treino de força faz que a caminhada não faz
Aqui a literatura é bastante direta.
Numa revisão sistemática com meta-análise publicada na revista Nutrients em 2018 por Sardeli e colaboradores, que reuniu seis ensaios randomizados com idosos com obesidade em restrição calórica, o treino de força preveniu cerca de 93,5% da perda de massa magra provocada pela restrição isolada. A diferença a favor de quem treinou foi de 0,819 kg de massa magra (intervalo de confiança de 95%: 0,364 a 1,273), com programas de 12 a 24 semanas e sessões três vezes por semana.
Duas leituras importam. A primeira é que o efeito foi medido em quem mais tem a perder, pessoas idosas com obesidade em déficit energético, que é o cenário clássico de risco de sarcopenia.
A segunda é que somar treino de força não fez o peso cair menos. Em revisões que olharam esse desfecho, acrescentar exercício resistido à dieta não mudou de forma relevante a perda de peso total. Não se troca resultado na balança por músculo preservado: preserva-se músculo dentro do mesmo resultado.
A caminhada tem outros papéis, e são bons: condicionamento, controle glicêmico, humor, sono. O que ela não faz é dar ao músculo o estímulo de carga que ele precisa para não ser descartado num corpo que está encolhendo.
O que acontece quando se junta exercício e medicação
Existe um ensaio desenhado exatamente para essa pergunta.
No estudo publicado no New England Journal of Medicine em 2021 por Lundgren e colaboradores, 195 adultos com obesidade passaram primeiro por oito semanas de dieta de muito baixa caloria e depois foram sorteados para quatro grupos por um ano: exercício com placebo, medicação com atividade habitual, exercício mais medicação, ou placebo com atividade habitual.
O resultado que interessa não é o peso, é a composição. O grupo que combinou exercício e medicação reduziu o percentual de gordura corporal em 3,9 pontos percentuais, aproximadamente o dobro do que ocorreu no grupo só de exercício (1,7 ponto) e no grupo só de medicação (1,9 ponto).
E há um detalhe que resume o argumento deste texto inteiro: apenas a estratégia combinada se associou a melhora simultânea da hemoglobina glicada, da sensibilidade à insulina e da aptidão cardiorrespiratória. Medicação sozinha melhorou o peso. Medicação com exercício melhorou o metabolismo, que é a diferença entre tratar o número e tratar a doença.

Como encaixar exercício durante o tratamento na rotina real
O que aparece na prática não é preguiça, é sequência errada: as pessoas esperam emagrecer para começar a treinar, e o momento em que treinar mais importa é justamente o de perda ativa.
Alguns princípios que orientam a conversa em consulta:
- Comece junto com o tratamento, não depois. O músculo que se perde nos primeiros meses é o mais difícil de recuperar.
- Frequência vence duração. Duas ou três sessões curtas de força por semana entregam mais preservação de massa magra do que uma sessão longa e heroica no sábado.
- Carga progressiva é o ingrediente ativo. Pode ser halter, elástico, máquina ou o próprio peso do corpo, desde que fique mais difícil com o tempo.
- A recomendação geral de atividade continua valendo. A Organização Mundial da Saúde orienta, para adultos, ao menos 150 minutos semanais de atividade moderada somados a fortalecimento muscular em dois ou mais dias da semana.
- Comer o suficiente é parte do treino. Força com aporte proteico baixo entrega menos, e é por isso que este texto anda junto com o que comer durante o tratamento.
Um cuidado específico: tontura, tremor, suor frio ou fraqueza durante ou logo após o exercício não são "parte do processo". Podem indicar hipoglicemia, sobretudo em quem também usa insulina ou sulfonilureia, e podem indicar ingestão insuficiente. Esse tipo de efeito colateral deve ser informado ao médico que acompanha, mesmo que tenha passado sozinho, porque com frequência a solução é ajustar outro remédio ou a rotina alimentar, e não abandonar o treino.
A pergunta que vale levar à consulta
Troque "quanto de exercício preciso fazer para emagrecer" por outra.
Pergunte: qual estímulo de força é seguro para mim hoje, considerando articulações, pressão e os exames que já tenho? A resposta vira um plano, e plano é o que sobrevive à semana ruim.
E guarde a régua. Se a balança desce e a força sobe, o processo está no rumo. Se a balança desce e a força cai junto, o número está certo e o tratamento está errado.
Dr. José Rogério da Silva, CRM-SP 172.346, RQE 78622.
O essencial
- No subestudo de composição corporal do SURMOUNT-1, com 160 participantes em 72 semanas, cerca de um quarto do peso perdido foi massa magra.
- Na meta-análise de Sardeli e colaboradores, publicada em Nutrients em 2018 com seis ensaios randomizados em idosos com obesidade, o treino de força preveniu cerca de 93,5% da perda de massa magra causada pela restrição calórica.
- Acrescentar treino de força à dieta não reduz de forma relevante a perda de peso total, apenas muda a composição do que sai.
- No ensaio de Lundgren e colaboradores, publicado no New England Journal of Medicine em 2021 com 195 participantes, a combinação de exercício e medicação reduziu o percentual de gordura em 3,9 pontos, cerca do dobro de cada estratégia isolada.
- No mesmo ensaio, só a estratégia combinada melhorou hemoglobina glicada, sensibilidade à insulina e aptidão cardiorrespiratória ao mesmo tempo.
- Tontura, tremor ou suor frio ligados ao exercício devem ser informados ao médico que acompanha, mesmo que passem sozinhos.
O que ainda não se sabe
Falta ensaio grande que compare formatos de treino durante o uso das medicações mais recentes. O estudo de Lundgren usou um análogo de GLP-1 de aplicação diária, e a extrapolação para as moléculas semanais é razoável, mas continua sendo extrapolação. Falta também saber se o treino iniciado durante o tratamento protege o resultado depois que a medicação sai, pergunta que se cruza com o que acontece quando se para a caneta.
Nada aqui substitui uma consulta. Cada caso tem história, articulações, pressão, exames e outros remédios em uso, e é isso que define o que é seguro treinar.
Perguntas frequentes
Qual exercício preserva músculo durante o tratamento?
O treino de força, com carga progressiva em grandes grupos musculares. Na meta-análise de Sardeli e colaboradores, publicada em Nutrients em 2018 com seis ensaios randomizados em idosos com obesidade em restrição calórica, o treino resistido preveniu cerca de 93,5% da perda de massa magra, com sessões três vezes por semana em programas de 12 a 24 semanas. Caminhada e atividade aeróbica têm outros benefícios importantes, mas não entregam o mesmo estímulo de carga.
Preciso fazer exercício se estou usando a medicação?
Os dois juntos entregam mais que cada um sozinho. No ensaio de Lundgren e colaboradores, publicado no New England Journal of Medicine em 2021 com 195 participantes, a combinação de exercício e medicação reduziu o percentual de gordura corporal em 3,9 pontos percentuais, contra 1,7 do exercício isolado e 1,9 da medicação isolada. E apenas a estratégia combinada melhorou hemoglobina glicada, sensibilidade à insulina e aptidão cardiorrespiratória ao mesmo tempo.
Musculação atrapalha a perda de peso?
Não. Em revisões que avaliaram esse desfecho, acrescentar exercício resistido a uma dieta com restrição energética não mudou de forma relevante a perda de peso total. O que muda é a composição do que sai. A balança pode descer um pouco mais devagar em algumas fases, porque músculo preservado pesa, e isso não é sinal de problema.
Quantas vezes por semana preciso treinar?
Nos estudos que mostraram preservação de massa magra, a frequência típica foi de três sessões semanais de treino de força. A recomendação geral da Organização Mundial da Saúde para adultos é de ao menos 150 minutos semanais de atividade moderada somados a fortalecimento muscular em dois ou mais dias da semana. O que é adequado para você depende de articulações, pressão e condicionamento atual, e se define em consulta.
Senti tontura e tremor treinando, é normal?
Não é para ser tratado como normal. Tontura, tremor, suor frio e fraqueza podem indicar hipoglicemia, risco que aumenta em quem usa insulina ou sulfonilureia junto, e podem indicar ingestão alimentar insuficiente para o esforço. Esse efeito deve ser informado ao médico que acompanha, mesmo que tenha passado sozinho, porque a conduta costuma ser ajustar a dose de outro remédio ou a rotina alimentar, e não parar de treinar.
Gosta do que lê aqui?
Adicione o site às suas fontes preferidas do Google e os artigos aparecem com mais frequência para você na busca.
Ficou com alguma dúvida sobre o seu caso?
O acompanhamento é feito por telemedicina, em todo o Brasil, com médico, nutrição, psicologia e enfermagem na mesma equipe.
Agendar pelo WhatsApp