Dr. Rogério Silva, médico cardiologista e cardionutrologista
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Pessoa deitada de costas na cama à noite com luz azulada da janela, sem rosto visível, cena sobre palpitação percebida ao deitar
Saúde do coração

Palpitação: quando é só uma batida fora de hora e quando pede avaliação

Palpitação: quando é só uma batida fora de hora e quando pede avaliação

"Parece que o coração falha e depois dá um soco." "Sinto ele batendo no pescoço quando deito." "De vez em quando ele tropeça." São descrições diferentes da mesma queixa: palpitação, que é simplesmente perceber o próprio coração batendo, quando normalmente a gente não percebe. Na maior parte das vezes a causa é benigna. Em algumas, é a pista de uma arritmia que merece tratamento. O que separa uma coisa da outra começa na forma como você descreve o que sente.

Sou o Dr. José Rogério da Silva, CRM-SP 172.346, RQE 78622, cardiologista e cardionutrólogo. Palpitação é uma das queixas que mais levam pessoas ao cardiologista, e uma das que mais geram ansiedade enquanto não se explicam.

O que você vai encontrar aqui

  • O que um estudo com 190 pacientes encontrou como causa da palpitação, e com que frequência era algo do coração.
  • O que é extrassístole, a "batida fora de hora", e por que ela quase sempre é benigna.
  • Como cada tipo de sensação aponta para uma explicação diferente.
  • Quais exames investigam e quais sinais mudam a urgência.

Ao terminar, você vai saber o que observar, o que anotar e quando não esperar.

O que causa palpitação, segundo quem mediu

Um estudo publicado no American Journal of Medicine em 1996 acompanhou 190 pacientes consecutivos que procuraram atendimento por palpitação num centro universitário. A causa foi identificada em 84% deles. Ela era cardíaca em 43%, psiquiátrica em 31%, como ansiedade e pânico, de outra natureza em 10% e ficou sem explicação em 16%.

Dois outros números do mesmo trabalho ajudam a tirar o peso da queixa. Em 40% dos casos, a causa foi descoberta só com conversa, exame físico, eletrocardiograma e exames de sangue. E a mortalidade em um ano foi de 1,6%, com a ressalva de que a palpitação voltou em três de cada quatro pessoas. Ou seja: costuma ser pouco perigosa e muito incômoda.

Palpitação por extrassístole: a batida fora de hora

A causa cardíaca mais comum é a extrassístole, um batimento que chega antes da hora. O que a pessoa sente, curiosamente, não é a batida adiantada. É a pausa que vem depois dela e o batimento seguinte, mais forte, que parece um soco ou um tropeço.

Extrassístoles aparecem em pessoas completamente saudáveis. Ficam mais frequentes com cafeína, álcool, noites mal dormidas, estresse, cigarro e alguns descongestionantes. Muita gente percebe mais à noite, deitada de lado, quando o silêncio deixa o próprio batimento audível.

Em coração sem doença estrutural, elas costumam ser benignas. A exceção é quando são muito frequentes, milhares por dia: nesse caso, com o tempo, podem enfraquecer o músculo cardíaco, um quadro conhecido como cardiomiopatia induzida por extrassístoles, que tem tratamento. É uma das razões para investigar em vez de só tranquilizar.

O que cada sensação costuma indicar

A descrição feita pelo paciente é o primeiro exame. A posição da European Heart Rhythm Association sobre o tema coloca a história clínica no centro da avaliação da palpitação, antes de qualquer aparelho. Na prática:

  • Falha seguida de batida forte, isolada ou em sequência curta, costuma ser extrassístole.
  • Disparo rápido e regular, que começa e termina de repente, sugere taquicardia supraventricular.
  • Batimento rápido e desencontrado, sem compasso, levanta a hipótese de fibrilação atrial.
  • Aceleração gradual, junto com aperto na garganta, formigamento e medo, é mais comum na ansiedade.
  • Batimento forte e regular ao deitar, sem aceleração, muitas vezes é só percepção aumentada do ritmo normal.

Nenhuma dessas associações fecha o diagnóstico sozinha. Elas orientam qual exame tem mais chance de flagrar o que está acontecendo.

Eletrodos adesivos de eletrocardiograma em bandeja de inox numa sala de exames, cena sobre a investigação da palpitação

Como a palpitação é investigada

O caminho costuma seguir esta ordem:

  • Eletrocardiograma, de preferência durante o sintoma, que é o registro mais valioso.
  • Exames de sangue, sobretudo tireoide, anemia e sais minerais.
  • Holter de 24 horas, quando a palpitação acontece quase todo dia.
  • Monitor de eventos por mais tempo, quando ela é rara e imprevisível.
  • Ecocardiograma, para ver a estrutura do coração quando há suspeita de doença ou extrassístoles muito frequentes.

Um exemplo comum: um homem de 41 anos, dois cafés duplos por dia, dormindo cinco horas por noite, sente "tropeços" à noite há três meses. O Holter mostra extrassístoles isoladas, sem arritmia sustentada, e o ecocardiograma é normal. A conduta não é remédio: é ajustar sono e cafeína e reavaliar. Se o exame tivesse mostrado outra coisa, a conversa seria outra.

Quando a palpitação pede avaliação rápida

Procure atendimento no mesmo dia se a palpitação vier com:

  • Desmaio ou quase desmaio.
  • Dor ou aperto no peito.
  • Falta de ar fora do habitual.
  • Início durante esforço físico, e não em repouso.
  • História familiar de morte súbita em pessoas jovens.
  • Doença cardíaca já conhecida, como infarto prévio ou insuficiência cardíaca.

Fora dessas situações, a palpitação merece consulta programada com cardiologista, sem pânico e sem adiar indefinidamente. Leve anotado quando acontece, quanto dura, como é a sensação e o que você consumiu naquele dia.

O essencial

  • Palpitação é perceber o próprio batimento, e na maioria das vezes a causa não é grave.
  • Num estudo com 190 pacientes, a causa foi cardíaca em 43% e psiquiátrica em 31%, com mortalidade baixa em um ano.
  • A extrassístole, batida fora de hora, é a causa cardíaca mais comum e costuma ser benigna em coração sem doença.
  • A descrição da sensação orienta qual exame pedir: eletrocardiograma, Holter ou monitor de eventos.
  • Desmaio, dor no peito, falta de ar, palpitação no esforço ou história familiar de morte súbita pedem avaliação rápida.

O que ainda não se sabe

Não há consenso sobre quantas extrassístoles por dia passam a ser motivo de preocupação, e o limite varia entre estudos. Também se investiga por que algumas pessoas percebem cada batimento extra e outras, com a mesma quantidade, não sentem nada.

Os dispositivos de pulso que registram o ritmo estão sendo testados como ferramenta de diagnóstico, e a tendência é que encurtem a investigação de quem tem sintoma raro. Enquanto isso, a boa descrição continua insubstituível. Nada aqui substitui uma consulta: cada caso exige avaliação individual.

Referências

  • Weber BE, Kapoor WN. Evaluation and outcomes of patients with palpitations. Am J Med. 1996;100:138-148. doi:10.1016/s0002-9343(97)89451-x.
  • Raviele A et al. Management of patients with palpitations: a position paper from the European Heart Rhythm Association. Europace. 2011;13:920-934. doi:10.1093/europace/eur130.
  • Lee GK et al. Premature ventricular contraction-induced cardiomyopathy: a treatable condition. Circ Arrhythm Electrophysiol. 2012;5:229-236. doi:10.1161/CIRCEP.111.963348.

Este conteúdo é informativo e não substitui a consulta médica. Cada caso exige avaliação individual. Responsável técnico: Dr. José Rogério da Silva, CRM-SP 172.346 · RQE 78622.

Perguntas frequentes

Palpitação é perigosa?

Na maioria das vezes, não. Num estudo com 190 pacientes, a mortalidade em um ano foi de 1,6%, e boa parte das causas era benigna ou ligada à ansiedade. O que muda a urgência são sinais associados, como desmaio, dor no peito, falta de ar, palpitação no esforço ou doença cardíaca conhecida.

O que é a sensação de que o coração falhou?

Geralmente é uma extrassístole, um batimento que chega antes da hora. A pessoa sente a pausa que vem depois e o batimento seguinte, mais forte. Em coração sem doença estrutural, costuma ser benigna, mas quando é muito frequente precisa ser acompanhada.

Ansiedade causa palpitação?

Sim, e com frequência. No estudo de 1996, causas psiquiátricas, como ansiedade e pânico, explicaram 31% dos casos. Mesmo assim, a investigação inicial é recomendada, porque ansiedade e arritmia podem coexistir na mesma pessoa.

Por que sinto palpitação quando deito?

Deitado, especialmente sobre o lado esquerdo, o coração fica mais próximo da parede do peito e o silêncio torna o batimento mais perceptível. Extrassístoles também costumam ser notadas à noite. Se vier com falta de ar ou desmaio, a avaliação deve ser rápida.

Que exame investiga palpitação?

O mais valioso é o eletrocardiograma feito durante o sintoma. Conforme a frequência dos episódios, entram o Holter de 24 horas ou o monitor de eventos por mais tempo, além de exames de sangue e, quando indicado, ecocardiograma.

Guia do Dr. RogérioAntes da CanetaAs páginas de valor que deveriam vir na caixa.Existe uma fase antes da primeira dose. Quase todo mundo pula.Conhecer o guia

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