Dr. Rogério Silva, médico cardiologista e cardionutrologista
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Tenis de corrida e garrafa de agua em primeiro plano com fita metrica desfocada ao fundo, cena sobre trocar o numero da balanca por outros sinais de progresso
Emagrecimento

Quantos quilos se perde com a caneta: por que ninguém honesto te dá esse número

Quantos quilos se perde com a caneta: por que ninguém honesto te dá esse número

A primeira pergunta da consulta quase nunca é sobre efeito colateral. É esta: quanto eu vou perder?

Prefiro dar a resposta logo, mesmo sendo a desconfortável: ninguém sabe. Não é evasiva, não é reserva profissional e não é falta de dado. É que o número que você quer não existe antes de você começar, e quem entrega um está adivinhando ou desrespeitando a norma que rege a publicidade médica no Brasil.

O que existe é melhor do que parece. Existe uma faixa, existe a explicação de por que ela é tão larga, e existem indicadores que dizem mais sobre a sua saúde do que o número da balança diria.

O que você vai encontrar aqui

  • O que o maior ensaio da classe mediu, e por que o resultado dele é uma distribuição, não um número.
  • Por que a média de um estudo nunca é a previsão de uma pessoa.
  • O que decide o resultado individual e não pode ser sabido no primeiro dia.
  • Quais indicadores substituem a pergunta dos quilos, inclusive na hora de decidir se o tratamento está valendo.

Ao fim você vai ter três perguntas melhores para levar à consulta do que a que te trouxe aqui.

Quantos quilos se perde com a caneta, segundo o ensaio que definiu a classe

O STEP 1 acompanhou 1.961 adultos com sobrepeso ou obesidade sem diabetes por 68 semanas, com semaglutida 2,4 mg ou placebo, e saiu no New England Journal of Medicine em 2021. Os dois grupos receberam orientação de estilo de vida.

O resultado quase sempre citado é a média. O resultado que interessa aqui é outro: a proporção de gente que chegou a cada patamar de redução do peso corporal.

  • 86,4% dos participantes reduziram pelo menos 5% do peso, contra 31,5% no placebo.
  • 69,1% reduziram pelo menos 10%, contra 12,0%.
  • 50,5% reduziram pelo menos 15%, contra 4,9%.

Leia essa lista de trás para frente e ela fica muito mais informativa. Cerca de um em cada sete não chegou nem aos 5%. E praticamente metade não chegou aos 15%. Dentro do mesmo ensaio, com a mesma medicação, a mesma dose e o mesmo protocolo de acompanhamento.

Isso não é ruído nem falha do estudo. É a informação principal: a resposta a essa classe de medicação varia muito entre pessoas, e o estudo mediu essa variação em vez de escondê-la atrás de uma média.

Por que a média do estudo não é a sua previsão

Média é um resumo de grupo. Ela descreve o que aconteceu com 1.961 pessoas juntas e não descreve nenhuma delas.

Se eu te disser a média do STEP 1, você vai fazer o que todo mundo faz: aplicar aquele número ao seu corpo e tratá-lo como meta. A partir daí só existem dois desfechos, e os dois são ruins. Ou você fica abaixo e conclui que falhou num tratamento que estava funcionando, ou você fica acima e passa a achar que o número era o objetivo.

Há um detalhe do desenho do estudo que quase nunca aparece nas manchetes: os participantes do grupo placebo também emagreceram, 2,0% em média, e uma parcela deles passou dos 5%. Eles receberam consultas, orientação alimentar e estímulo a atividade física durante 68 semanas. Esse é o pano de fundo sobre o qual o efeito da medicação foi medido, e é um pano de fundo que a maioria das pessoas não tem.

Some a isso a regra profissional. A Resolução CFM 2.336/2023 proíbe, no artigo 11, garantir, prometer ou insinuar bons resultados de tratamento, e proíbe também o uso de representações visuais que induzam à percepção de resultado garantido. Quando um anúncio te dá um número, ele não está sendo mais generoso que o seu médico. Está fazendo algo que o seu médico não pode fazer, e por um bom motivo.

O que decide o resultado e não dá para saber no primeiro dia

Na prática de consultório, a diferença entre duas pessoas com o mesmo peso inicial e a mesma prescrição costuma estar em fatores que só aparecem depois que o tratamento começa:

  • Qual dose o corpo tolera. O escalonamento é individual, e nem todo mundo chega ao teto de bula. Isso está detalhado no texto sobre dose e titulação individual.
  • Quanto tempo de tratamento contínuo é possível sustentar, considerando tolerância, acesso e vida real.
  • O que está sendo perdido junto com a gordura, porque perder músculo muda o metabolismo e muda o que vem depois. É o assunto de perder peso e perder músculo não são a mesma coisa.
  • Sono, medicações em uso, tireoide, humor e quantidade de proteína na alimentação, que empurram o resultado para os dois lados.

Nenhum desses itens é conhecido na primeira consulta. Por isso o número não existe ali: ele depende de variáveis que ainda não aconteceram.

Um exemplo que se repete. Duas pacientes começam na mesma semana, mesmo peso, mesma medicação. Uma tolera bem o escalonamento, treina força duas vezes por semana desde o começo e dorme seis horas e meia em média. A outra sente muita náusea, fica meses numa dose intermediária e não consegue incluir estímulo de força. Ao fim de um ano a balança conta duas histórias diferentes, e a composição corporal conta uma terceira. Se eu tivesse prometido um número na primeira consulta, teria errado com as duas.

Quantos quilos importam menos do que quatro números que ninguém pergunta

Se a pergunta dos quilos não tem resposta antecipada, ela precisa ser substituída por perguntas que têm.

Circunferência da cintura. É a medida mais simples de gordura visceral, que é a que se associa a risco metabólico. A cintura pode cair de forma perceptível mesmo em fases em que a balança trava.

Pressão, glicemia, hemoglobina glicada e perfil lipídico. São os números que mudam o prognóstico e não a foto.

Força e função. Levantar de uma cadeira baixa sem apoio, subir um lance de escada sem parar, carregar as compras. Se isso piorou enquanto o peso caía, algo está errado no processo, e o texto sobre sarcopenia explica por quê.

Desfecho duro. Aqui está o dado mais forte que a classe produziu, e ele não tem nada a ver com estética. No SELECT, com 17.604 participantes com doença cardiovascular estabelecida e sobrepeso ou obesidade, sem diabetes, publicado no New England Journal of Medicine em 2023, a semaglutida 2,4 mg reduziu em 20% o desfecho combinado de morte cardiovascular, infarto não fatal e AVC não fatal, ao longo de cerca de 40 meses, com razão de risco de 0,80 e intervalo de confiança de 95% entre 0,72 e 0,90.

Repare no que foi medido. Infarto e AVC. Não a balança. O estudo mais importante da classe não foi feito para responder à pergunta que abre este artigo.

O que fazer com isso na próxima consulta

Troque uma pergunta por três.

A primeira: para que estamos tratando, na minha situação específica? Pressão, gordura no fígado, glicemia, apneia, risco cardiovascular, dor no joelho. A resposta define o que vai ser considerado sucesso.

A segunda: como vamos medir se está funcionando, além do peso? Peça os indicadores por escrito.

A terceira: em quanto tempo faz sentido reavaliar antes de concluir qualquer coisa? Julgar um tratamento crônico por quatro semanas de balança é o erro mais comum que eu vejo.

E se algum efeito colateral aparecer no caminho, ele deve ser informado ao médico que acompanha, inclusive quando passou sozinho. É a soma desses relatos que mostra se a dose está adequada. O detalhamento está em efeitos colaterais da caneta.

O essencial

  • No STEP 1, com 1.961 participantes em 68 semanas, 86,4% reduziram ao menos 5% do peso, 69,1% ao menos 10% e 50,5% ao menos 15%.
  • Cerca de um em cada sete não chegou aos 5%, o que mostra que a resposta varia muito entre pessoas.
  • Média de ensaio descreve grupo e não prevê indivíduo, e nos ensaios o grupo placebo também recebeu acompanhamento estruturado.
  • A Resolução CFM 2.336/2023 proíbe prometer ou insinuar bons resultados, então um número prometido é sinal de alerta, não de transparência.
  • O que decide o resultado individual, como dose tolerada, tempo de tratamento e preservação de músculo, só se conhece depois de começar.
  • O desfecho mais relevante da classe, medido no SELECT com 17.604 participantes, foi redução de 20% em morte cardiovascular, infarto e AVC, e não peso.

O que os próximos anos ainda vão responder

Falta previsibilidade individual. Hoje não existe exame que diga, antes de começar, quem vai responder bem e quem vai ficar naquele grupo que não chega aos 5%. Há linhas de pesquisa buscando marcadores genéticos e metabólicos que separem respondedores de não respondedores, e ainda não há nada aplicável no consultório.

Também falta horizonte. Os ensaios que sustentam a classe têm de 68 a 72 semanas, e a obesidade é doença crônica. O que acontece em cinco ou dez anos está sendo observado agora, em tempo real, com quem começou primeiro.

Nada aqui substitui uma consulta. Cada caso tem história, exames e outros remédios em uso, e é isso que decide a conduta.

Dr. José Rogério da Silva, CRM-SP 172.346, RQE 78622.

Perguntas frequentes

Por que o médico não me diz quanto peso vou perder?

Porque o número depende de variáveis que ainda não aconteceram no primeiro dia: qual dose o corpo tolera, por quanto tempo o tratamento é sustentado, quanto músculo é preservado, como está o sono e quais outros remédios estão em uso. Além disso, a Resolução CFM 2.336/2023 proíbe no artigo 11 garantir, prometer ou insinuar bons resultados de tratamento. Um número prometido é sinal de alerta.

O que o STEP 1 realmente mediu?

Mediu a redução do peso corporal em 1.961 adultos com sobrepeso ou obesidade sem diabetes, ao longo de 68 semanas, comparando semaglutida 2,4 mg com placebo, e publicou o resultado como proporção de pessoas que atingiu cada patamar: 86,4% chegaram a pelo menos 5% de redução, 69,1% a pelo menos 10% e 50,5% a pelo menos 15%. Os dois grupos receberam orientação de estilo de vida.

Existe alguém que não responde ao tratamento?

Existe. No STEP 1, cerca de um em cada sete participantes não alcançou 5% de redução do peso, apesar de estar no grupo que recebeu a medicação. Não há hoje exame capaz de identificar essas pessoas antes de começar, e é por isso que a reavaliação programada faz parte do tratamento em vez de ser opcional.

Se não é peso, o que devo acompanhar para saber se está funcionando?

Circunferência da cintura, pressão arterial, glicemia e hemoglobina glicada, perfil lipídico, marcadores de fígado, qualidade do sono e, principalmente, força e função no dia a dia. No SELECT, com 17.604 participantes e cerca de 40 meses de seguimento, o benefício demonstrado foi redução de 20% em morte cardiovascular, infarto não fatal e AVC não fatal.

Por que dois pacientes com o mesmo peso inicial têm resultados diferentes?

Porque a dose tolerada, o tempo de tratamento contínuo, a quantidade de proteína na alimentação, a presença de estímulo de força, o sono e outras medicações em uso mudam o desfecho. Dois corpos com o mesmo ponto de partida percorrem caminhos diferentes, e a diferença aparece tanto na balança quanto na composição corporal, que a balança não mostra.

Ficou com alguma dúvida sobre o seu caso?

O acompanhamento é feito por telemedicina, em todo o Brasil, com médico, nutrição, psicologia e enfermagem na mesma equipe.

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