
O que eu falei no Bom Dia SP sobre perdão e coração
Dr. José Rogério da SilvaMédico cardiologista · CRM-SP 172.346 · RQE 78622Publicado em 04 de setembro de 2026O que eu falei no Bom Dia SP sobre perdão e coração
Fui convidado pelo Bom Dia SP, da TV Globo, para conversar sobre uma pergunta que soa como autoajuda e é, na verdade, cardiologia: o que acontece com o coração de quem passa anos guardando raiva, mágoa e ressentimento.
A reportagem foi às ruas ouvir gente comum sobre perdão. Uma entrevistada resumiu o problema melhor do que qualquer artigo: tem muita gente que diz que perdoou, mas guarda tudo num "saquinho de rancor". É exatamente desse saquinho que eu quero falar aqui, com o que a literatura médica tem a dizer sobre ele.
O coração não é só uma bomba
A visão de que o coração é apenas uma bomba, cuja função é empurrar sangue para o resto do corpo, não se sustenta mais. Ele tem um sistema nervoso próprio, com neurônios organizados em gânglios na própria parede cardíaca, capaz de processar informação localmente e de modular o batimento sem esperar ordem do cérebro. O fisiologista canadense J. Andrew Armour chamou esse conjunto de "pequeno cérebro do coração", e descreveu a relevância clínica dele em revisão publicada na Experimental Physiology (Armour, 2008).
O caminho é de mão dupla. O que acontece na sua vida chega ao coração por via nervosa e hormonal, e o estado do coração também informa o cérebro. Por isso emoção sustentada por anos não fica só na cabeça: ela se organiza no corpo.
Raiva e hostilidade aparecem nas estatísticas
Aqui a conversa sai da metáfora. Uma metanálise de estudos prospectivos publicada no Journal of the American College of Cardiology reuniu dados de dezenas de coortes e encontrou associação entre raiva e hostilidade e eventos coronarianos futuros, tanto em populações saudáveis quanto em pessoas que já tinham doença cardíaca (Chida e Steptoe, 2009).
Duas leituras importam aqui, e as duas precisam ser ditas juntas. A primeira: associação não é o mesmo que causa isolada, e ninguém infarta apenas porque não perdoou. A segunda: o efeito apareceu de forma consistente em muitos estudos independentes, o que torna implausível descartá-lo como coincidência.
E o perdão, faz diferença medida?
Faz, e há ensaios clínicos, ainda que pequenos, que testaram isso.
Em pacientes com doença arterial coronariana, um estudo publicado em Psychology & Health dividiu participantes entre um programa estruturado de perdão interpessoal e um grupo de comparação. Quem passou pelo programa apresentou melhora nos defeitos de perfusão miocárdica induzidos por lembrança de raiva, além de ganho nas medidas de perdão (Waltman, Russell e Coyle, 2009).
Em hipertensos, um treinamento de perdão reduziu de forma significativa a expressão de raiva, e a queda de pressão apareceu justamente no subgrupo que entrou no estudo com os escores de raiva mais altos (Tibbits e cols., 2006).
Repare no detalhe, porque ele é o mais útil para a prática: o benefício foi maior em quem tinha mais raiva acumulada. Não é que perdoar baixe a pressão de todo mundo. É que, em quem carrega hostilidade alta, tratar isso mexe em algo que os remédios sozinhos não alcançam.
Onde entra a ocitocina
Na entrevista falei que o coração participa da produção de hormônios ligados ao vínculo, e vale ser preciso. A ocitocina é sintetizada principalmente no hipotálamo, mas existem receptores e produção local no tecido cardíaco, e há uma literatura consistente sobre efeitos cardiovasculares dela, incluindo modulação da frequência cardíaca, da pressão e de processos inflamatórios (Jankowski, Broderick e Gutkowska, 2020).
Isso não transforma um abraço em tratamento cardiológico. Mas ajuda a explicar por que vínculo, convivência e reconciliação não são assunto exclusivo da psicologia.
Perdoar não é esquecer, e não é sobre o outro
A palavra "perdão" carrega uma confusão que atrapalha. Perdoar não significa concordar com o que houve, nem retomar uma relação, nem fingir que não doeu. Na literatura, perdão é descrito como a redução da resposta de rancor e do desejo de retaliação, e essa redução é medida em quem perdoa, não em quem foi perdoado.
Foi por isso que uma das pessoas ouvidas na reportagem disse algo tecnicamente correto sem citar nenhum estudo: o perdão faz mais bem a quem perdoa do que ao próximo.
O que fazer com isso na consulta
Quando alguém chega ao consultório com pressão difícil de controlar, sono ruim, dor no peito sem causa estrutural ou peso que não cede, a conversa não pode terminar nos exames. Estresse prolongado, luto não elaborado, conflito familiar antigo e ressentimento sustentado por anos mantêm o organismo em estado de alerta, e isso aparece na pressão, no sono, no apetite e na inflamação.
Investigar isso não é substituir a medicina por conversa. É reconhecer que uma parte do que sustenta o quadro não está no exame de sangue. Quando é o caso, o acompanhamento psicológico entra junto com a conduta clínica, e não como consolo depois que o tratamento falhou.
Este conteúdo é informativo e não substitui a consulta médica. Cada caso exige avaliação individual. Responsável técnico: Dr. José Rogério da Silva, CRM-SP 172.346 · RQE 78622.
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