Dr. Rogério Silva, médico cardiologista e cardionutrologista
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Pedra sobre água calma formando ondas concêntricas, imagem do efeito prolongado que uma mágoa guardada produz no corpo.
Saúde do coração

Rancor não é só um sentimento: o que ele faz na pressão e na inflamação

Rancor não é só um sentimento: o que ele faz na pressão e na inflamação

Existe uma pergunta que quase ninguém faz em consulta de cardiologia e que muda o rumo de alguns casos: há quanto tempo você está com raiva de alguém?

Ela não substitui exame nenhum. Mas explica uma parte do que o exame mostra.

O corpo não distingue ameaça real de ameaça lembrada

O sistema de resposta ao estresse foi desenhado para durar minutos. Diante de um perigo, o organismo libera adrenalina e cortisol, a frequência cardíaca sobe, a pressão sobe, a glicose é disponibilizada e o corpo fica pronto para agir. Terminado o perigo, tudo volta ao lugar.

O problema é que esse sistema também dispara com uma lembrança. Recordar uma injustiça, uma traição ou uma humilhação ativa a mesma via, e quem revisita a cena todos os dias mantém o gatilho apertado por anos. É isso que transforma uma resposta útil de minutos em um estado permanente de vigilância.

E o custo desse estado é mensurável.

O que a literatura encontra

Uma metanálise de estudos prospectivos publicada no Journal of the American College of Cardiology avaliou a associação entre raiva, hostilidade e doença coronariana. O achado: maior hostilidade associou-se a mais eventos coronarianos, tanto em pessoas saudáveis no início do seguimento quanto em quem já tinha doença cardíaca estabelecida (Chida e Steptoe, 2009).

Do outro lado da equação, há ensaios testando o caminho inverso. Em pacientes com doença arterial coronariana, um programa estruturado de perdão interpessoal melhorou os defeitos de perfusão miocárdica provocados por lembrança de raiva, em comparação com o grupo controle (Waltman, Russell e Coyle, 2009). Em hipertensos, treinamento de perdão reduziu a expressão de raiva, com queda de pressão concentrada em quem entrou com os escores de raiva mais altos (Tibbits e cols., 2006).

São estudos pequenos, e é honesto dizer isso. Nenhum deles autoriza prometer que resolver uma mágoa vai normalizar a sua pressão. O que eles sustentam é mais modesto e mais útil: em quem carrega hostilidade alta, essa hostilidade é um alvo clínico legítimo, e não um detalhe da biografia.

Por onde o rancor chega ao corpo

Quatro caminhos aparecem com regularidade na prática:

Pressão arterial. O estado de alerta sustentado mantém tônus simpático elevado, o que dificulta o controle pressórico mesmo com medicação bem ajustada. É comum a pressão de consultório e a de casa contarem histórias diferentes em quem vive assim.

Sono. Ruminar à noite atrasa o início do sono e fragmenta a madrugada. Sono curto de forma crônica altera os hormônios que regulam fome e saciedade, piora a sensibilidade à insulina e aumenta a pressão. Não existe plano alimentar que compense noites assim.

Comportamento alimentar. Sob tensão contínua, a comida deixa de ser nutrição e passa a ser regulação de emoção. Isso costuma acontecer à noite, no fim de um dia em que a pessoa segurou a barra o dia inteiro.

Inflamação. O estresse psicológico prolongado se associa a marcadores inflamatórios mais altos, e inflamação de baixo grau é parte da história natural da aterosclerose. Esse é o elo que conecta o que se sente com o que se vê no exame anos depois.

O coração tem sistema nervoso próprio

Vale registrar por que essa conversa é de cardiologia e não de outra especialidade. O coração possui um sistema nervoso intrínseco, com neurônios na própria parede cardíaca, que processa informação localmente e conversa o tempo todo com o sistema nervoso central (Armour, 2008). Existem ainda receptores para hormônios ligados ao vínculo, como a ocitocina, com efeitos cardiovasculares descritos na literatura (Jankowski, Broderick e Gutkowska, 2020).

O coração escuta. Essa é a leitura fisiológica de uma frase que soa poética.

O que fazer, na prática

Nomear. Ficar com raiva de alguém não é defeito de caráter. É informação clínica, e merece a mesma seriedade de um exame alterado.

Medir o custo. Quanto tempo por dia você passa revisitando aquela cena? Ela atrapalha o seu sono? Antecede os episódios de comer sem fome? Essa é a pergunta que transforma sentimento em dado.

Separar perdão de reconciliação. Perdoar, no sentido estudado pela literatura, é reduzir a resposta de rancor. Não implica retomar a relação, concordar com o que houve nem se expor de novo a quem causou dano.

Buscar apoio adequado. Quando o assunto é grande, psicoterapia é o recurso indicado, e ela caminha junto do tratamento clínico. No acompanhamento que faço, psicologia integra a equipe desde o começo, e não como plano B depois que a dieta ou a medicação falharam.

Não abandonar a medicina. Hipertensão trata-se com tratamento adequado. Nada aqui substitui medicação, exame ou acompanhamento. O que muda é que a causa do estado de alerta passa a ser tratada também.


Este conteúdo é informativo e não substitui a consulta médica. Cada caso exige avaliação individual. Responsável técnico: Dr. José Rogério da Silva, CRM-SP 172.346 · RQE 78622.

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