Dr. Rogério Silva, médico cardiologista e cardionutrologista
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Estetoscópio sobre mesa de madeira clara com xícara de chá e luz da manhã, cena sobre caneta emagrecedora e coração
Saúde do coração

Caneta emagrecedora e coração: o que muda além do peso

Caneta emagrecedora e coração: o que muda além do peso

A pergunta que mais ouço de quem já teve infarto, colocou stent ou convive com insuficiência cardíaca não é sobre a balança. É outra: a caneta emagrecedora faz bem ou faz mal para o coração? A resposta curta é que, nos estudos feitos com pessoas que já tinham doença cardiovascular, o grupo tratado teve menos eventos graves do que o grupo placebo. A resposta completa tem condições, números e limites, e é ela que vale a pena conhecer.

Sou o Dr. José Rogério da Silva, CRM-SP 172.346, RQE 78622, cardiologista e cardionutrólogo. Neste texto eu separo o que foi medido do que costuma ser repetido sem base.

O que você vai encontrar aqui

  • O que o ensaio SELECT mediu em 17.604 pessoas com doença cardiovascular e sem diabetes.
  • Por que a redução de risco foi de 20% relativos, e o que esse número quer dizer na prática.
  • O que muda na insuficiência cardíaca com fração de ejeção preservada, segundo o STEP-HFpEF.
  • Os cuidados cardiológicos que continuam valendo durante o tratamento, incluindo a frequência cardíaca.

Ao fim você vai saber o que perguntar ao seu cardiologista antes de decidir, e por que essa decisão não se toma pela experiência de outra pessoa.

Caneta emagrecedora e coração: o que o SELECT mediu

Durante anos, o que se sabia sobre remédios dessa classe e coração vinha de pessoas com diabetes tipo 2. Faltava a pergunta que interessa a quem tem obesidade e doença cardíaca, mas não tem diabetes.

O SELECT, publicado no New England Journal of Medicine em 2023, foi desenhado para isso. Incluiu 17.604 adultos com 45 anos ou mais, todos com doença cardiovascular já estabelecida, índice de massa corporal a partir de 27 e sem diabetes. Metade recebeu semaglutida 2,4 mg por semana, metade recebeu placebo, e o acompanhamento médio foi de 39,8 meses.

O desfecho principal era o que mais importa em cardiologia: morte cardiovascular, infarto não fatal ou AVC não fatal. Ele aconteceu em 6,5% do grupo tratado e em 8,0% do grupo placebo. Em termos relativos, uma redução de risco de 20%.

O que esse número significa, e o que ele não significa

Vinte por cento relativos soa grande, e é relevante. Mas repare nos números absolutos: a diferença foi de 1,5 ponto percentual em pouco mais de três anos, num grupo de alto risco. É um benefício real, medido com rigor, e não é uma garantia individual. Algumas pessoas tratadas tiveram eventos, e muitas do grupo placebo não tiveram.

Há outro dado do mesmo estudo que quase nunca aparece nas manchetes: 16,6% das pessoas tratadas interromperam a medicação por efeito adverso, contra 8,2% no placebo. Os efeitos mais comuns eram digestivos. Isso não anula o benefício, mas mostra que tolerar o tratamento faz parte da conta.

Nos Estados Unidos, a agência reguladora incorporou a redução de risco de eventos cardiovasculares maiores à bula da semaglutida 2,4 mg, para adultos com doença cardiovascular estabelecida e obesidade ou sobrepeso. No Brasil, vale a indicação registrada na Anvisa, e é essa que orienta a prescrição.

E quem tem diabetes?

Para quem tem diabetes tipo 2, o dado é mais antigo. O SUSTAIN-6, de 2016, acompanhou 3.297 pessoas com diabetes e alto risco cardiovascular por 104 semanas. O desfecho combinado de morte cardiovascular, infarto ou AVC ocorreu em 6,6% do grupo semaglutida e 8,9% do placebo. O mesmo estudo registrou mais complicações de retinopatia no grupo tratado, um detalhe que muda o acompanhamento de quem já tem doença na retina.

Caneta emagrecedora e coração fraco: o STEP-HFpEF

A insuficiência cardíaca com fração de ejeção preservada é aquela em que o coração contrai razoavelmente, mas enche mal. Ela é muito ligada à obesidade, e até pouco tempo quase nada melhorava os sintomas.

O STEP-HFpEF, também de 2023, randomizou 529 pessoas com esse tipo de insuficiência cardíaca e IMC a partir de 30 para semaglutida 2,4 mg ou placebo por 52 semanas. O grupo tratado relatou menos sintomas e limitações num questionário padronizado, caminhou em média 20 metros a mais no teste de seis minutos e teve queda maior da proteína C reativa, um marcador de inflamação.

Vinte metros parecem pouco. Para quem para no meio do quarteirão por falta de ar, é a diferença entre chegar ou não à padaria. Ainda assim, o estudo foi desenhado para sintomas e capacidade, não para mortalidade, e isso precisa ser dito.

O que acontece com pressão, colesterol e glicemia

O coração não reage só ao remédio. Reage ao conjunto do que muda quando o peso cai. No SURMOUNT-1, que testou a tirzepatida em 2.539 adultos com obesidade, os autores relataram melhora em todos os marcadores cardiometabólicos pré-especificados, o que inclui pressão arterial, lipídios e glicemia.

Na prática do consultório, isso aparece de um jeito concreto: a pessoa que tomava dois ou três remédios para pressão às vezes precisa reduzir a dose, porque a pressão começa a cair. É bom sinal, e é também o motivo de o tratamento exigir acompanhamento. Pressão que cai demais dá tontura, e tontura em quem toma anti-hipertensivo não se resolve sozinho em casa.

O que continua exigindo atenção do cardiologista

Tratamento com efeito cardiovascular favorável não dispensa vigilância. Três pontos entram na minha lista:

  • Frequência cardíaca. A bula americana descreve aumento médio de 1 a 4 batimentos por minuto em repouso. Em quem tem arritmia ou taquicardia, isso é acompanhado.
  • Remédios para pressão e diabetes. Com a perda de peso, as doses antigas podem ficar altas demais, e o ajuste é feito pelo médico, não pela bula.
  • Hidratação. Vômito e diarreia desidratam, e desidratação pesa sobre o rim, principalmente em quem usa diurético.
  • Efeitos colaterais em geral. Todo efeito deve ser informado ao médico que acompanha, mesmo o que passou sozinho, porque é esse registro que orienta a próxima dose.

Pessoa vista de costas caminhando em parque arborizado pela manhã, cena sobre cuidado com o coração durante o tratamento com caneta emagrecedora

Um exemplo comum: um homem de 58 anos, com stent há dois anos, pergunta se pode começar o tratamento. A conversa não começa pela caneta. Começa pelos remédios que ele já usa, pelo último eletrocardiograma, pela função dos rins e pelo quanto ele caminha hoje. A medicação entra, quando entra, num plano que já existia.

O que levar para a próxima consulta

Se você tem doença cardiovascular e está considerando o tratamento, leve três coisas: a lista completa de remédios com as doses, os exames mais recentes e a sua pergunta escrita. A pergunta boa não é "posso usar?". É "no meu caso, o benefício medido nos estudos se aplica, e o que precisa ser ajustado para começar com segurança?".

A decisão depende do seu risco, das outras doenças, da tolerância e do que já foi tentado. É por isso que ela é individual e não se copia de ninguém.

O essencial

  • No SELECT, com 17.604 pessoas com doença cardiovascular e sem diabetes, eventos graves ocorreram em 6,5% dos tratados e 8,0% do placebo.
  • A redução relativa foi de 20%, o que é relevante e não garante resultado individual.
  • No STEP-HFpEF, a insuficiência cardíaca com fração preservada teve menos sintomas e melhor capacidade de caminhada.
  • Pressão, lipídios e glicemia tendem a melhorar, e remédios antigos podem precisar de ajuste.
  • Frequência cardíaca, hidratação e efeitos colaterais continuam sob vigilância, e todo efeito deve ser informado ao médico.

O que ainda não se sabe

Os estudos cardiovasculares têm de três a quatro anos de acompanhamento. Não se sabe ainda o efeito ao longo de dez ou vinte anos, nem quanto do benefício depende da perda de peso e quanto vem de ações diretas sobre vaso e inflamação. Também faltam dados robustos em grupos pouco representados nos ensaios, como pessoas muito idosas e frágeis.

Há estudos em andamento com outras moléculas da mesma família e com desfechos cardiovasculares próprios. Até que saiam, o que se aplica a uma substância não se transfere automaticamente para outra. Nada aqui substitui uma consulta: cada caso tem história, exames e remédios em uso, e é isso que define a conduta.

Referências

  • Lincoff AM et al. Semaglutide and Cardiovascular Outcomes in Obesity without Diabetes (SELECT). N Engl J Med. 2023;389:2221-2232. doi:10.1056/NEJMoa2307563.
  • Kosiborod MN et al. Semaglutide in Patients with Heart Failure with Preserved Ejection Fraction and Obesity (STEP-HFpEF). N Engl J Med. 2023;389:1069-1084. doi:10.1056/NEJMoa2306963.
  • Marso SP et al. Semaglutide and Cardiovascular Outcomes in Patients with Type 2 Diabetes (SUSTAIN-6). N Engl J Med. 2016;375:1834-1844. doi:10.1056/NEJMoa1607141.
  • Jastreboff AM et al. Tirzepatide Once Weekly for the Treatment of Obesity (SURMOUNT-1). N Engl J Med. 2022;387:205-216. doi:10.1056/NEJMoa2206038.
  • FDA. Bula americana da semaglutida 2,4 mg, seções de indicação e de aumento da frequência cardíaca, 2024. accessdata.fda.gov.

Este conteúdo é informativo e não substitui a consulta médica. Cada caso exige avaliação individual. Responsável técnico: Dr. José Rogério da Silva, CRM-SP 172.346 · RQE 78622.

Perguntas frequentes

A caneta emagrecedora faz mal para o coração?

Nos ensaios feitos com pessoas que já tinham doença cardiovascular, o grupo tratado teve menos eventos graves que o placebo. No SELECT, a combinação de morte cardiovascular, infarto e AVC ocorreu em 6,5% dos tratados e 8,0% do placebo. Isso não dispensa acompanhamento, porque frequência cardíaca, pressão e hidratação precisam ser vigiadas.

Quem teve infarto pode usar caneta emagrecedora?

O SELECT incluiu justamente pessoas com infarto, AVC ou doença arterial prévia, e sem diabetes. A decisão, porém, é individual: depende dos remédios em uso, da função dos rins, do ritmo cardíaco e da tolerância ao tratamento, e é tomada com o cardiologista.

Quanto o risco cardiovascular diminui com o tratamento?

No SELECT, a redução relativa foi de 20% num acompanhamento médio de 39,8 meses. Em números absolutos, a diferença foi de 1,5 ponto percentual. É um benefício medido no grupo, que não se traduz em garantia para uma pessoa específica.

A caneta acelera o coração?

A bula americana descreve aumento médio de 1 a 4 batimentos por minuto em repouso. Para a maioria isso não tem consequência, mas em quem tem arritmia ou taquicardia o acompanhamento inclui a frequência cardíaca, e qualquer mudança percebida deve ser informada ao médico.

Preciso mudar meus remédios de pressão durante o tratamento?

Às vezes sim. Com a perda de peso, a pressão tende a cair, e a dose antiga pode ficar alta, provocando tontura. O ajuste é feito pelo médico, com medida de pressão em casa e na consulta, e não por conta própria.

Guia do Dr. RogérioAntes da CanetaAs páginas de valor que deveriam vir na caixa.Existe uma fase antes da primeira dose. Quase todo mundo pula.Conhecer o guia

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