
Canetas emagrecedoras e perda de visão: o que um cardiologista precisa te dizer
Dr. José Rogério da SilvaMédico cardiologista · CRM-SP 172.346 · RQE 78622Publicado em 30 de setembro de 2026Canetas emagrecedoras e perda de visão: o que um cardiologista precisa te dizer
Nas últimas semanas, recebi no consultório e nas redes a mesma pergunta, dita de vários jeitos:
"Doutor, a caneta pode me deixar cego?"
A pergunta nasce de uma notícia real. A Anvisa está investigando 13 notificações de suspeita de uma lesão chamada neuropatia óptica isquêmica anterior não arterítica, a Noia, em pessoas que usavam medicamentos da classe dos agonistas de GLP-1: Ozempic, Wegovy, Rybelsus e Mounjaro.
Diante de uma manchete assim, é natural sentir medo. Meu papel aqui é trocar o medo por clareza.
O que você vai encontrar aqui
- O que é a Noia, explicada por um cardiologista.
- O que é fato e o que é suspeita na relação com as canetas.
- Quem deve ou não parar o medicamento, e o que muda no cuidado.
- Por que o maior alerta é a caneta usada sem indicação.
Ao fim, a ideia é que você saiba o que perguntar ao seu médico, sem pânico e sem minimizar.
O que é a Noia, em linguagem de cardiologista
O nervo óptico é o cabo que leva a imagem do olho até o cérebro. Ele é nutrido por vasos muito pequenos. Quando esses vasos deixam de levar sangue suficiente para a parte da frente do nervo, as células sofrem por falta de oxigênio e parte delas morre.
Na prática: é um infarto do nervo óptico.
O mecanismo é parecido com o que eu vejo todos os dias no coração: um vaso que falha, um tecido que fica sem sangue. O sintoma costuma ser uma piora súbita da visão em um olho, geralmente sem dor, muitas vezes percebida ao acordar. Na maioria dos casos, a perda não se recupera totalmente.
Um ponto muito importante para analisar é que a Noia não escolhe pessoas ao acaso. Ela é rara e aparece com mais frequência em quem já tem os vasos comprometidos:
- Diabetes.
- Hipertensão.
- Colesterol alterado.
- Apneia do sono.
- Tabagismo.
O diabetes, em especial, agride o endotélio, a camada que reveste os vasos por dentro, e deixa o nervo mais vulnerável.
Ou seja: o mesmo terreno que adoece o coração adoece o nervo óptico.

O que realmente se sabe sobre a relação com as canetas
Vamos separar o que é fato do que é suspeita.
Fato: existem notificações. O sistema de farmacovigilância da Anvisa recebe relatos de pacientes, médicos e fabricantes, e esses 13 casos estão lá.
Suspeita: que o medicamento tenha causado a lesão. A própria Anvisa afirma que remédio e doença aparecerem na mesma notificação não prova que um causou o outro.
O estudo mais citado sobre o tema, publicado no JAMA Ophthalmology, analisou prontuários de mais de 1.600 pacientes e observou um risco de quatro a sete vezes maior de Noia entre usuários de semaglutida. Parece assustador. Mas os próprios autores reconheceram a limitação: muitos desses pacientes tinham diabetes, que sozinho já aumenta o risco.
Por outro lado, uma análise conjunta de ensaios clínicos randomizados, divulgada pela fabricante da semaglutida, não encontrou aumento de casos em quem usou o remédio em comparação com placebo.
Os três números que resumem o cenário:
- 13 notificações suspeitas em investigação no Brasil.
- 4 a 7 vezes é o risco relativo em estudo observacional, sem prova de causa.
- 1 a cada 10 mil é a estimativa máxima da agência europeia: reação muito rara.
Os órgãos reguladores fizeram o que deveriam: em 2025, a Anvisa incluiu a Noia na bula da semaglutida como reação adversa muito rara. A agência europeia seguiu na mesma linha, estimando algo em torno de até 1 caso a cada 10 mil usuários.
Minha leitura. Como médico que prefere dado conservador a manchete impactante: há um sinal que merece atenção, mas não há prova de causa, e o risco absoluto é muito baixo.
Então, quem usa a caneta deve parar?
Não, se o uso tem indicação médica.
Obesidade, diabetes e doença cardiovascular matam. Isso é comprovado. Os agonistas de GLP-1 reduzem peso, melhoram a glicemia e, em estudos robustos, reduziram eventos cardiovasculares. Quando existe indicação, o benefício supera, com folga, um risco que ainda é raro e incerto.
O que muda é o cuidado:
- Quem já teve Noia não deve usar esses medicamentos.
- Perda súbita ou recente da visão é motivo para suspender e procurar atendimento no mesmo dia.
- Quem tem diabetes deve manter o exame de retina em dia, com ou sem caneta.
- Controle os fatores vasculares: pressão, glicemia, colesterol, sono e cigarro. Eles protegem o coração e também o nervo óptico.
Qualquer alteração na visão, mesmo a que parece leve ou passageira, deve ser informada ao médico que acompanha o tratamento.
O verdadeiro alerta: a caneta por vaidade
Se existe um grupo que me preocupa de verdade, é o de quem usa a caneta sem indicação, só para perder alguns quilos por estética, muitas vezes sem acompanhamento.
Todo medicamento tem riscos. A conta só fecha quando o benefício é maior do que o risco. Para uma pessoa com obesidade e doença cardiovascular, essa conta é claramente favorável. Para quem não precisa, qualquer risco, por menor que seja, passa a pesar mais.
E há algo que nenhuma caneta resolve: a relação emocional com a comida, o estresse crônico, a ansiedade que empurra para o prato. Tratar o peso sem olhar para isso é tratar o sintoma e esquecer a causa.
O essencial
- A Noia é um "infarto" do nervo óptico, rara e mais comum em quem já tem vasos doentes.
- Os casos notificados no Brasil são suspeitos, sem relação de causa comprovada.
- O risco, se existir, é muito baixo.
- Com indicação médica, o benefício das canetas continua maior que o risco.
- Sem indicação, a conta muda.
- Qualquer alteração súbita da visão exige atendimento imediato.
Informação não é para gerar pânico. É para gerar decisão consciente, junto com o seu médico.
Referências
- Hathaway JT, Shah MP, Hathaway DB et al. Risk of Nonarteritic Anterior Ischemic Optic Neuropathy in Patients Prescribed Semaglutide. JAMA Ophthalmol. 2024;142(8):732-739. doi:10.1001/jamaophthalmol.2024.2296.
- Agência Europeia de Medicamentos (EMA), Comitê de Farmacovigilância (PRAC). NAION é um efeito adverso muito raro dos medicamentos com semaglutida, junho de 2025. ema.europa.eu.
- Anvisa. Investigação de 13 notificações de suspeita de Noia em usuários de agonistas de GLP-1, setembro de 2026, e inclusão da reação muito rara na bula da semaglutida, junho de 2025. Cobertura: Metrópoles.
Dr. Rogério Silva. Cardiologista, especialista em Clínica Médica, pós-graduado em Neurociência e Psicologia Positiva, com formação em cardionutrologia. Autor de A Dor que os Exames Não Mostram. @drrogeriosilvacardio
Este conteúdo é informativo e não substitui a consulta médica. Cada caso exige avaliação individual. Responsável técnico: Dr. José Rogério da Silva, CRM-SP 172.346 · RQE 78622.
Perguntas frequentes
A caneta emagrecedora pode causar cegueira?
Existe uma suspeita em investigação, e não uma relação de causa comprovada. A Anvisa analisa 13 notificações de Noia em usuários de agonistas de GLP-1, e afirma que remédio e doença aparecerem na mesma notificação não prova que um causou o outro. Em 2025 a Noia entrou na bula da semaglutida como reação adversa muito rara, com estimativa europeia de até 1 caso a cada 10 mil usuários.
O que é a Noia?
É a neuropatia óptica isquêmica anterior não arterítica, uma espécie de infarto do nervo óptico: vasos muito pequenos deixam de levar sangue suficiente para a parte da frente do nervo, e parte das células morre por falta de oxigênio. Costuma causar piora súbita da visão em um olho, geralmente sem dor, e na maioria dos casos a perda não se recupera totalmente.
Quem usa caneta deve parar por causa desse risco?
Não, se o uso tem indicação médica. Quando existe indicação, o benefício supera, com folga, um risco que ainda é raro e incerto. Quem já teve Noia não deve usar esses medicamentos, e perda súbita ou recente da visão é motivo para suspender e procurar atendimento no mesmo dia.
Quem tem diabetes corre mais risco e o que deve fazer?
A Noia aparece com mais frequência em quem já tem os vasos comprometidos, como diabetes, hipertensão, colesterol alterado, apneia do sono e tabagismo. Quem tem diabetes deve manter o exame de retina em dia, com ou sem caneta, e controlar pressão, glicemia, colesterol, sono e cigarro.
Usar a caneta só por estética é mais arriscado?
A conta muda. Todo medicamento tem riscos, e ela só fecha quando o benefício é maior do que o risco. Para quem não tem indicação, qualquer risco, por menor que seja, passa a pesar mais, e o uso sem acompanhamento médico é o que mais preocupa.
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