Dr. Rogério Silva, médico cardiologista e cardionutrologista
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Mãos de médico segurando uma lente de exame dos olhos em consultório claro, com uma caneta de aplicação semanal sobre a mesa, cena sobre perda de visão e canetas emagrecedoras
Saúde do coração

Canetas emagrecedoras e perda de visão: o que um cardiologista precisa te dizer

Canetas emagrecedoras e perda de visão: o que um cardiologista precisa te dizer

Nas últimas semanas, recebi no consultório e nas redes a mesma pergunta, dita de vários jeitos:

"Doutor, a caneta pode me deixar cego?"

A pergunta nasce de uma notícia real. A Anvisa está investigando 13 notificações de suspeita de uma lesão chamada neuropatia óptica isquêmica anterior não arterítica, a Noia, em pessoas que usavam medicamentos da classe dos agonistas de GLP-1: Ozempic, Wegovy, Rybelsus e Mounjaro.

Diante de uma manchete assim, é natural sentir medo. Meu papel aqui é trocar o medo por clareza.

O que você vai encontrar aqui

  • O que é a Noia, explicada por um cardiologista.
  • O que é fato e o que é suspeita na relação com as canetas.
  • Quem deve ou não parar o medicamento, e o que muda no cuidado.
  • Por que o maior alerta é a caneta usada sem indicação.

Ao fim, a ideia é que você saiba o que perguntar ao seu médico, sem pânico e sem minimizar.

O que é a Noia, em linguagem de cardiologista

O nervo óptico é o cabo que leva a imagem do olho até o cérebro. Ele é nutrido por vasos muito pequenos. Quando esses vasos deixam de levar sangue suficiente para a parte da frente do nervo, as células sofrem por falta de oxigênio e parte delas morre.

Na prática: é um infarto do nervo óptico.

O mecanismo é parecido com o que eu vejo todos os dias no coração: um vaso que falha, um tecido que fica sem sangue. O sintoma costuma ser uma piora súbita da visão em um olho, geralmente sem dor, muitas vezes percebida ao acordar. Na maioria dos casos, a perda não se recupera totalmente.

Um ponto muito importante para analisar é que a Noia não escolhe pessoas ao acaso. Ela é rara e aparece com mais frequência em quem já tem os vasos comprometidos:

  • Diabetes.
  • Hipertensão.
  • Colesterol alterado.
  • Apneia do sono.
  • Tabagismo.

O diabetes, em especial, agride o endotélio, a camada que reveste os vasos por dentro, e deixa o nervo mais vulnerável.

Ou seja: o mesmo terreno que adoece o coração adoece o nervo óptico.

Mesa de médico com estetoscópio, aparelho de pressão, medidor de glicemia e caderno de anotações, com tabela de acuidade visual ao fundo, cena sobre o cuidado com coração, vasos e visão

O que realmente se sabe sobre a relação com as canetas

Vamos separar o que é fato do que é suspeita.

Fato: existem notificações. O sistema de farmacovigilância da Anvisa recebe relatos de pacientes, médicos e fabricantes, e esses 13 casos estão lá.

Suspeita: que o medicamento tenha causado a lesão. A própria Anvisa afirma que remédio e doença aparecerem na mesma notificação não prova que um causou o outro.

O estudo mais citado sobre o tema, publicado no JAMA Ophthalmology, analisou prontuários de mais de 1.600 pacientes e observou um risco de quatro a sete vezes maior de Noia entre usuários de semaglutida. Parece assustador. Mas os próprios autores reconheceram a limitação: muitos desses pacientes tinham diabetes, que sozinho já aumenta o risco.

Por outro lado, uma análise conjunta de ensaios clínicos randomizados, divulgada pela fabricante da semaglutida, não encontrou aumento de casos em quem usou o remédio em comparação com placebo.

Os três números que resumem o cenário:

  • 13 notificações suspeitas em investigação no Brasil.
  • 4 a 7 vezes é o risco relativo em estudo observacional, sem prova de causa.
  • 1 a cada 10 mil é a estimativa máxima da agência europeia: reação muito rara.

Os órgãos reguladores fizeram o que deveriam: em 2025, a Anvisa incluiu a Noia na bula da semaglutida como reação adversa muito rara. A agência europeia seguiu na mesma linha, estimando algo em torno de até 1 caso a cada 10 mil usuários.

Minha leitura. Como médico que prefere dado conservador a manchete impactante: há um sinal que merece atenção, mas não há prova de causa, e o risco absoluto é muito baixo.

Então, quem usa a caneta deve parar?

Não, se o uso tem indicação médica.

Obesidade, diabetes e doença cardiovascular matam. Isso é comprovado. Os agonistas de GLP-1 reduzem peso, melhoram a glicemia e, em estudos robustos, reduziram eventos cardiovasculares. Quando existe indicação, o benefício supera, com folga, um risco que ainda é raro e incerto.

O que muda é o cuidado:

  1. Quem já teve Noia não deve usar esses medicamentos.
  2. Perda súbita ou recente da visão é motivo para suspender e procurar atendimento no mesmo dia.
  3. Quem tem diabetes deve manter o exame de retina em dia, com ou sem caneta.
  4. Controle os fatores vasculares: pressão, glicemia, colesterol, sono e cigarro. Eles protegem o coração e também o nervo óptico.

Qualquer alteração na visão, mesmo a que parece leve ou passageira, deve ser informada ao médico que acompanha o tratamento.

O verdadeiro alerta: a caneta por vaidade

Se existe um grupo que me preocupa de verdade, é o de quem usa a caneta sem indicação, só para perder alguns quilos por estética, muitas vezes sem acompanhamento.

Todo medicamento tem riscos. A conta só fecha quando o benefício é maior do que o risco. Para uma pessoa com obesidade e doença cardiovascular, essa conta é claramente favorável. Para quem não precisa, qualquer risco, por menor que seja, passa a pesar mais.

E há algo que nenhuma caneta resolve: a relação emocional com a comida, o estresse crônico, a ansiedade que empurra para o prato. Tratar o peso sem olhar para isso é tratar o sintoma e esquecer a causa.

O essencial

  • A Noia é um "infarto" do nervo óptico, rara e mais comum em quem já tem vasos doentes.
  • Os casos notificados no Brasil são suspeitos, sem relação de causa comprovada.
  • O risco, se existir, é muito baixo.
  • Com indicação médica, o benefício das canetas continua maior que o risco.
  • Sem indicação, a conta muda.
  • Qualquer alteração súbita da visão exige atendimento imediato.

Informação não é para gerar pânico. É para gerar decisão consciente, junto com o seu médico.

Referências

  • Hathaway JT, Shah MP, Hathaway DB et al. Risk of Nonarteritic Anterior Ischemic Optic Neuropathy in Patients Prescribed Semaglutide. JAMA Ophthalmol. 2024;142(8):732-739. doi:10.1001/jamaophthalmol.2024.2296.
  • Agência Europeia de Medicamentos (EMA), Comitê de Farmacovigilância (PRAC). NAION é um efeito adverso muito raro dos medicamentos com semaglutida, junho de 2025. ema.europa.eu.
  • Anvisa. Investigação de 13 notificações de suspeita de Noia em usuários de agonistas de GLP-1, setembro de 2026, e inclusão da reação muito rara na bula da semaglutida, junho de 2025. Cobertura: Metrópoles.

Dr. Rogério Silva. Cardiologista, especialista em Clínica Médica, pós-graduado em Neurociência e Psicologia Positiva, com formação em cardionutrologia. Autor de A Dor que os Exames Não Mostram. @drrogeriosilvacardio

Este conteúdo é informativo e não substitui a consulta médica. Cada caso exige avaliação individual. Responsável técnico: Dr. José Rogério da Silva, CRM-SP 172.346 · RQE 78622.

Perguntas frequentes

A caneta emagrecedora pode causar cegueira?

Existe uma suspeita em investigação, e não uma relação de causa comprovada. A Anvisa analisa 13 notificações de Noia em usuários de agonistas de GLP-1, e afirma que remédio e doença aparecerem na mesma notificação não prova que um causou o outro. Em 2025 a Noia entrou na bula da semaglutida como reação adversa muito rara, com estimativa europeia de até 1 caso a cada 10 mil usuários.

O que é a Noia?

É a neuropatia óptica isquêmica anterior não arterítica, uma espécie de infarto do nervo óptico: vasos muito pequenos deixam de levar sangue suficiente para a parte da frente do nervo, e parte das células morre por falta de oxigênio. Costuma causar piora súbita da visão em um olho, geralmente sem dor, e na maioria dos casos a perda não se recupera totalmente.

Quem usa caneta deve parar por causa desse risco?

Não, se o uso tem indicação médica. Quando existe indicação, o benefício supera, com folga, um risco que ainda é raro e incerto. Quem já teve Noia não deve usar esses medicamentos, e perda súbita ou recente da visão é motivo para suspender e procurar atendimento no mesmo dia.

Quem tem diabetes corre mais risco e o que deve fazer?

A Noia aparece com mais frequência em quem já tem os vasos comprometidos, como diabetes, hipertensão, colesterol alterado, apneia do sono e tabagismo. Quem tem diabetes deve manter o exame de retina em dia, com ou sem caneta, e controlar pressão, glicemia, colesterol, sono e cigarro.

Usar a caneta só por estética é mais arriscado?

A conta muda. Todo medicamento tem riscos, e ela só fecha quando o benefício é maior do que o risco. Para quem não tem indicação, qualquer risco, por menor que seja, passa a pesar mais, e o uso sem acompanhamento médico é o que mais preocupa.

Guia do Dr. RogérioAntes da CanetaAs 29 páginas que deviam vir dentro da caixa.Existe uma fase antes da primeira dose. Quase todo mundo pula.Conhecer o guia

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