
Depressão e coração: por que o cardiologista precisa perguntar como você está
Dr. José Rogério da SilvaMédico cardiologista · CRM-SP 172.346 · RQE 78622Publicado em 02 de outubro de 2026Depressão e coração: por que o cardiologista precisa perguntar como você está
Existe uma pergunta que deveria estar em toda consulta de cardiologia e quase nunca está: como você tem se sentido? Não a pressão, não o colesterol. O ânimo. Depois de um infarto, de uma cirurgia cardíaca ou de um diagnóstico de insuficiência cardíaca, muita gente atravessa meses de tristeza, desinteresse e cansaço, e ouve que é normal, que vai passar. Às vezes passa. Muitas vezes é depressão, e a relação entre depressão e coração é uma das mais bem documentadas da cardiologia.
Sou o Dr. José Rogério da Silva, CRM-SP 172.346, RQE 78622, cardiologista e cardionutrólogo. Neste texto eu explico por que essa pergunta faz parte do cuidado com o coração, e não é conversa paralela.
O que você vai encontrar aqui
- O que levou a Associação Americana do Coração a considerar a depressão um fator de risco depois do infarto.
- Com que frequência a depressão aparece em quem já tem doença coronária.
- Por que ela passa despercebida, e como costuma se disfarçar de cansaço.
- O que um ensaio clínico mostrou sobre a segurança de tratar a depressão em quem teve infarto.
Ao fim, você vai saber reconhecer os sinais em você ou em alguém da família, e o que pedir na próxima consulta.
Depressão e coração: o que levou a mudança de posição
Em 2014, a Associação Americana do Coração publicou uma declaração científica que revisou 53 estudos e quatro metanálises sobre depressão em pessoas com síndrome coronária aguda, que inclui infarto e angina instável. A conclusão foi que a evidência, embora heterogênea, mostrava associação consistente entre depressão e piores desfechos, como mortalidade. A recomendação final foi elevar a depressão à condição de fator de risco para mau prognóstico nesse grupo.
É uma mudança de peso. Coloca a depressão na mesma conversa em que estão pressão alta, diabetes e colesterol quando se discute o futuro de quem teve um evento cardíaco.
E antes do primeiro infarto?
O estudo INTERHEART, que comparou 11.119 pessoas com primeiro infarto a 13.648 sem infarto em 52 países, registrou depressão em 24,0% dos que infartaram e em 17,6% dos controles. É uma associação, não prova de causa, mas mostra que a depressão já aparece com mais frequência antes do evento.
Com que frequência a depressão aparece no coração doente
O ensaio SADHART, publicado no JAMA em 2002, cita na sua introdução que a depressão maior ocorre em 15% a 23% das pessoas com síndrome coronária aguda. Somando os quadros mais leves, a proporção é maior.
Em 2008, um documento da Associação Americana do Coração, endossado pela Associação Americana de Psiquiatria, já recomendava que sintomas depressivos fossem rastreados em pessoas com doença coronária, com questionários simples, para identificar quem precisa de avaliação e tratamento.
Por que a depressão passa despercebida
Depois de um evento cardíaco, cansaço, sono ruim, falta de apetite e dificuldade de concentração são esperados por um tempo. São também sintomas de depressão. A sobreposição faz com que o quadro seja atribuído ao coração, ao remédio ou à idade.
Os sinais que ajudam a separar são estes:
- Perda de interesse por coisas de que a pessoa gostava, e não só cansaço para fazê-las.
- Tristeza ou irritação presentes na maior parte dos dias, por mais de duas semanas.
- Sensação de ser um peso para a família, ou de que não vale a pena se cuidar.
- Abandono do tratamento, como pular remédios, faltar à reabilitação ou voltar a fumar.
O último item é um dos caminhos pelos quais a depressão pesa no coração: ela tira a energia justamente das tarefas que protegem o coração.

Tratar é seguro para o coração?
Durante muito tempo, havia receio de usar antidepressivos logo depois de um infarto. O SADHART testou exatamente isso: 369 pessoas com depressão maior, hospitalizadas por infarto ou angina instável, receberam sertralina ou placebo por 24 semanas. A medicação não alterou a fração de ejeção, não aumentou arritmias e não prolongou o intervalo QT, e houve melhora clínica maior no grupo tratado, principalmente nos quadros mais graves.
O tratamento da depressão em quem tem doença cardíaca combina, em geral, psicoterapia, medicação conduzida por psiquiatra quando indicada, atividade física supervisionada e reabilitação cardíaca. A escolha do antidepressivo leva em conta os remédios do coração, e por isso cardiologista e psiquiatra precisam conversar.
Um exemplo que se repete: um homem de 62 anos, seis meses depois de colocar dois stents, conta que "não tem mais vontade de nada" e parou a caminhada. A família atribuía ao susto. O questionário de rastreio apontou depressão moderada. O encaminhamento para tratamento veio junto com o retorno à reabilitação, e as duas coisas andaram juntas.
O que fazer com isso
Se você teve infarto, stent, cirurgia ou tem insuficiência cardíaca, diga ao seu médico como tem se sentido, mesmo que ele não pergunte. Se é alguém da família, observe perda de interesse e abandono do tratamento, que costumam aparecer antes das palavras.
E se a tristeza vier acompanhada de pensamentos de morte, procure ajuda imediatamente. O CVV atende gratuitamente pelo telefone 188, a qualquer hora.
O essencial
- A Associação Americana do Coração passou a considerar a depressão fator de risco para mau prognóstico depois do infarto.
- A depressão maior aparece em 15% a 23% das pessoas com síndrome coronária aguda.
- Cansaço, sono ruim e falta de apetite confundem, e perda de interesse e abandono do tratamento ajudam a reconhecer.
- O SADHART mostrou que tratar a depressão com sertralina depois do infarto não alterou medidas de segurança cardíaca.
- O tratamento combina psicoterapia, medicação quando indicada, atividade física e reabilitação cardíaca.
O que ainda não se sabe
A principal pergunta ainda aberta é se tratar a depressão reduz infartos e mortes, e não apenas melhora os sintomas. Os ensaios feitos até aqui não foram grandes o bastante para responder isso de forma definitiva. Também se estuda por que alguns tipos de depressão, como a que surge depois do evento cardíaco, parecem pesar mais no prognóstico.
O que já se sabe basta para agir: perguntar, rastrear e tratar. Nada aqui substitui uma consulta, e cada caso exige avaliação individual.
Referências
- Lichtman JH et al. Depression as a risk factor for poor prognosis among patients with acute coronary syndrome: a scientific statement from the American Heart Association. Circulation. 2014;129:1350-1369. doi:10.1161/CIR.0000000000000019.
- Lichtman JH et al. Depression and coronary heart disease: recommendations for screening, referral, and treatment. Circulation. 2008;118:1768-1775. doi:10.1161/CIRCULATIONAHA.108.190769.
- Glassman AH et al. Sertraline treatment of major depression in patients with acute MI or unstable angina (SADHART). JAMA. 2002;288:701-709. doi:10.1001/jama.288.6.701.
- Rosengren A et al. Association of psychosocial risk factors with risk of acute myocardial infarction in 11119 cases and 13648 controls from 52 countries (INTERHEART). Lancet. 2004;364:953-962. doi:10.1016/S0140-6736(04)17019-0.
Este conteúdo é informativo e não substitui a consulta médica. Cada caso exige avaliação individual. Responsável técnico: Dr. José Rogério da Silva, CRM-SP 172.346 · RQE 78622.
Perguntas frequentes
Depressão faz mal ao coração?
Em pessoas que já tiveram infarto ou angina instável, a depressão se associa a pior prognóstico, e a Associação Americana do Coração passou a considerá-la fator de risco nesse grupo em 2014. No INTERHEART, depressão também foi mais frequente entre quem teve o primeiro infarto do que entre os controles.
É comum ter depressão depois de um infarto?
Sim. A depressão maior aparece em 15% a 23% das pessoas com síndrome coronária aguda, e quadros mais leves são ainda mais frequentes. Por isso documentos da Associação Americana do Coração recomendam rastrear sintomas depressivos em quem tem doença coronária.
Como diferenciar cansaço do coração de depressão?
Os dois podem causar cansaço e sono ruim. O que aponta para depressão é a perda de interesse por coisas de que a pessoa gostava, tristeza ou irritação na maior parte dos dias por mais de duas semanas e abandono do tratamento. Um questionário simples, aplicado na consulta, ajuda a separar.
Quem tem problema no coração pode tomar antidepressivo?
Em muitos casos, sim. O ensaio SADHART mostrou que a sertralina, usada por 24 semanas depois de infarto ou angina instável, não alterou a fração de ejeção, não aumentou arritmias e não prolongou o intervalo QT. A escolha do remédio considera os medicamentos do coração e é feita em conjunto entre cardiologista e psiquiatra.
Tratar a depressão reduz o risco de novo infarto?
Ainda não há prova definitiva disso. O que se sabe é que tratar melhora os sintomas e ajuda a pessoa a retomar remédios, atividade física e reabilitação, que protegem o coração. Por isso a recomendação é rastrear e tratar.
Gosta do que lê aqui?
Adicione o site às suas fontes preferidas do Google e os artigos aparecem com mais frequência para você na busca.
Ficou com alguma dúvida sobre o seu caso?
O acompanhamento é feito por telemedicina, em todo o Brasil, com médico, nutrição, psicologia e enfermagem na mesma equipe.
Agendar pelo WhatsApp