Dr. Rogério Silva, médico cardiologista e cardionutrologista
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Caderno fechado, caneta e copo de agua sobre escrivaninha de madeira em luz de manha, cena sobre o acompanhamento de longo prazo do tratamento
Emagrecimento

Efeito colateral a longo prazo: o que se sabe e o que ainda não

Efeito colateral a longo prazo: o que se sabe e o que ainda não

"E daqui a dez anos, doutor?" É uma das perguntas mais inteligentes que chegam ao consultório, e é aquela para a qual a resposta honesta é a menos confortável: não sabemos, porque ninguém acompanhou ninguém por dez anos com essas medicações nessas doses.

Isso não é o mesmo que dizer que não se sabe nada. Existe uma quantidade considerável de dados, com prazos definidos, e vale a pena conhecer exatamente até onde eles vão. Porque a diferença entre "não há evidência de dano" e "há evidência de ausência de dano" é a coisa mais importante deste texto.

O que você vai encontrar aqui

  • Até onde exatamente vão os ensaios clínicos, com números e prazos.
  • O estudo mais longo que existe hoje, e o que ele mostrou.
  • O que já se pode afirmar sobre o uso prolongado, com alguma segurança.
  • O que continua em aberto, dito sem rodeio.

Ao fim você vai ter uma noção calibrada do que existe de evidência, que é o que permite decidir sem otimismo forçado e sem medo importado da internet.

Efeito colateral a longo prazo: até onde vão os dados

Os grandes ensaios de emagrecimento têm duração parecida e conhecida. O STEP 1, com semaglutida em 1.961 adultos, durou 68 semanas. O SURMOUNT-1, com tirzepatida em 2.539 adultos, durou 72 semanas. São pouco mais de um ano e meio cada um.

É tempo suficiente para descrever muito bem o que aparece cedo: os efeitos digestivos, a curva de tolerância ao longo do escalonamento, quantas pessoas interrompem o tratamento e por quê. Todo o conteúdo de efeitos colaterais da caneta emagrecedora sai desse tipo de dado, e ele é sólido.

E é tempo insuficiente para responder sobre a década. Um estudo de 72 semanas não consegue, por construção, dizer o que acontece no quinto ano.

Existe uma exceção importante. O SELECT, publicado no New England Journal of Medicine em 2023, acompanhou 17.604 adultos com sobrepeso ou obesidade e doença cardiovascular prévia, sem diabetes, com exposição média de 34,2 meses e seguimento médio de 39,8 meses. É perto de três anos e meio, com uma amostra grande, e é o horizonte mais longo que existe hoje em ensaio controlado.

O desfecho principal desse estudo foi cardiovascular: morte por causa cardiovascular, infarto não fatal ou acidente vascular cerebral não fatal ocorreram em 6,5% do grupo da semaglutida contra 8,0% do placebo, com razão de risco de 0,80.

Repare no que isso significa para a pergunta deste artigo. Não é só que não apareceu um dano novo em três anos e meio de acompanhamento. É que, naquela população específica, apareceu benefício em desfecho duro.

O que já dá para afirmar com alguma segurança

Juntando os ensaios longos, a experiência acumulada da classe em diabetes desde meados dos anos 2000 e a vigilância pós-comercialização, alguns pontos ficaram razoavelmente estabelecidos.

  • Os efeitos digestivos não são progressivos. Eles se concentram no escalonamento e tendem a diminuir com o tempo de uso, não a piorar.
  • Pancreatite não apareceu em excesso nos ensaios controlados. O assunto tem espaço próprio em pancreatite e caneta emagrecedora.
  • O risco de cálculo na vesícula é real e está ligado à perda de peso rápida, o que não é exclusividade dessa classe de medicamento.
  • O alerta sobre tumor de tireoide continua sendo baseado em roedores, e a própria bula registra que a relevância desse achado em humanos não foi determinada.
  • A perda de massa magra acontece e é modificável, com proteína e treino de força, e é um dos pontos que mais merece atenção em uso prolongado.

Há um ponto adicional que costuma ser esquecido: a lista de advertências não só cresce, ela também encolhe. O alerta sobre comportamento e ideação suicida foi acrescentado à bula, investigado e depois retirado: em 2026 a FDA pediu a remoção dele das bulas dessa classe, depois de uma revisão que reuniu 91 ensaios clínicos, com 107.910 participantes, e um estudo de coorte com mais de 2,2 milhões de pessoas, sem encontrar aumento de risco. É assim que a vigilância funciona, e é uma boa razão para desconfiar de qualquer texto que trate o assunto como definitivo.

O que continua em aberto

Aqui vai a parte que ninguém deveria maquiar.

  • Uso por cinco, dez ou vinte anos. Simplesmente não existe esse dado com essas moléculas nessas doses. Está sendo construído agora, com quem está usando.
  • Saúde óssea. Perda de peso significativa afeta densidade mineral óssea, e o impacto de longo prazo em mulheres após a menopausa é uma das perguntas mais relevantes ainda sem resposta adequada.
  • Consequência funcional da perda de massa magra. Sabe-se que ela ocorre e sabe-se preservá-la em parte. Não se sabe o que a fração perdida representa em força, equilíbrio e autonomia aos setenta anos.
  • Ciclos de parar e recomeçar. O que acontece com quem usa por um período, interrompe, recupera peso e retoma, repetidamente, ao longo de anos, não está descrito.
  • Uso sem acompanhamento. Boa parte do uso real acontece fora de qualquer estudo, com dose ajustada por conta própria e sem exame nenhum, e esse cenário não gera dado utilizável.

Uma observação metodológica que vale para todos esses pontos: os ensaios acompanham populações selecionadas, com critérios de inclusão, exames periódicos e alguém checando. O uso na vida real inclui mais comorbidade, mais medicação simultânea e menos supervisão. Extrapolar de um para o outro exige cautela nas duas direções.

E existe o outro lado da conta, que raramente entra na pergunta original. A comparação relevante nunca é entre usar a medicação e um estado neutro. É entre tratar e não tratar, porque obesidade não tratada também tem desfecho de longo prazo, bem documentado, em coração, articulação, fígado e risco de câncer.

O que fazer com essa incerteza, na prática

Incerteza não é motivo para paralisia, e também não é licença para tratar qualquer coisa como resolvida. Ela orienta três comportamentos concretos.

O primeiro é acompanhamento com prazo. Uso prolongado pede reavaliação periódica com exame, e não renovação automática de receita. O segundo é proteger o que se sabe ser perdível: proteína e treino de força desde a primeira semana, não a partir do dia em que a fraqueza aparece. O terceiro é o mais simples e o mais negligenciado.

Todo efeito colateral deve ser informado ao médico responsável, inclusive o que passou sozinho. É literalmente assim que a base de conhecimento de longo prazo se constrói: a partir do que as pessoas relatam a quem as acompanha. O sintoma que você achou irrelevante e não contou é um dado que deixou de existir.

Dr. José Rogério da Silva, CRM-SP 172.346, RQE 78622.

O essencial

  • Os grandes ensaios de emagrecimento duraram 68 semanas no STEP 1 e 72 semanas no SURMOUNT-1, ou seja, cerca de um ano e meio.
  • O horizonte mais longo disponível é o SELECT, com 17.604 adultos, exposição média de 34,2 meses e seguimento médio de 39,8 meses.
  • Nesse estudo, desfechos cardiovasculares maiores ocorreram em 6,5% do grupo da semaglutida contra 8,0% do placebo, com razão de risco de 0,80.
  • Os efeitos digestivos não são progressivos: eles se concentram no escalonamento e tendem a diminuir.
  • Osso, consequência funcional da perda de massa magra e uso por décadas seguem sem resposta adequada.
  • A vigilância muda a bula nos dois sentidos, e um alerta acrescentado pode ser retirado depois, como ocorreu em 2026.
  • Todo efeito colateral deve ser informado ao médico que acompanha, mesmo o que passou sozinho.

O que os próximos anos devem trazer

As respostas que faltam virão de três fontes, e elas já estão em curso. A primeira são as extensões dos ensaios existentes, que seguem acompanhando participantes além do período original. A segunda são os grandes bancos de dados de uso real, que reúnem milhões de pessoas e detectam sinais raros que ensaio nenhum tem tamanho para enxergar. A terceira é a vigilância regulatória, que já mostrou saber acrescentar e retirar alerta.

O que isso significa para quem lê hoje: a informação desta página tem prazo de validade, e ela deve ser confrontada com o que o médico que acompanha souber na data da consulta.

Nada aqui substitui uma consulta. Cada caso tem história, exames e outros remédios em uso, e é isso que decide a conduta. Quem não deve usar a medicação em nenhuma hipótese está descrito em quem não pode usar caneta emagrecedora.

Perguntas frequentes

Por quanto tempo os estudos acompanharam quem usa a caneta emagrecedora?

Os grandes ensaios de emagrecimento duraram 68 semanas no STEP 1, com 1.961 adultos, e 72 semanas no SURMOUNT-1, com 2.539 adultos. O acompanhamento mais longo existente é o do SELECT, com 17.604 adultos, exposição média de 34,2 meses e seguimento médio de 39,8 meses, publicado em 2023.

Existe algum dado sobre uso por mais de dez anos?

Não com essas moléculas nessas doses. Esse dado está sendo construído agora, com quem está em tratamento. A classe é usada em diabetes desde meados dos anos 2000, o que dá alguma experiência acumulada, e é preciso lembrar que se trata de moléculas e doses diferentes das usadas para controle de peso.

Os efeitos colaterais pioram com o passar dos anos?

Não é o que os dados mostram. Os efeitos digestivos se concentram no período de aumento de dose e tendem a diminuir com o tempo de uso. O que muda ao longo dos anos é outra coisa: a atenção passa da tolerância ao remédio para a preservação de massa magra, a saúde óssea e a reavaliação periódica com exames.

O que ainda não se sabe sobre o uso prolongado?

Basicamente quatro coisas. O efeito ao longo de décadas, o impacto na densidade óssea sobretudo em mulheres após a menopausa, a consequência funcional da massa magra perdida na velhice e o que acontece com quem usa em ciclos, parando e recomeçando ao longo de anos.

Se falta informação de longo prazo, não é mais seguro não tratar?

A comparação correta não é entre tratar e um estado neutro. Obesidade não tratada também tem desfecho de longo prazo bem documentado, em coração, articulação, fígado e risco de câncer. A decisão pesa os dois lados dessa balança, e ela depende do risco individual de cada pessoa, o que só se estabelece em consulta.

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