Dr. Rogério Silva, médico cardiologista e cardionutrologista
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Escova de cabelo de madeira sobre pia de banheiro branca ao lado de um copo, em luz de manha, cena sobre a queda de cabelo durante a perda de peso
Emagrecimento

Queda de cabelo: o que é da medicação e o que é da perda rápida

Queda de cabelo: o que é da medicação e o que é da perda rápida

A cena é quase sempre a mesma. O tratamento está indo bem, a pessoa está satisfeita, e aí, por volta do terceiro mês, começa a sobrar cabelo no ralo do banho e na escova. O susto é grande, e a primeira conclusão costuma ser a errada: "o remédio está me fazendo perder cabelo".

Quase nunca é isso. O que está acontecendo tem nome, tem uma explicação de fisiologia bem estabelecida, tem prazo para acabar e responde a coisas concretas. E existe um pequeno grupo de casos que não se encaixa nessa história, e esse precisa ser identificado.

O que você vai encontrar aqui

  • O que os ensaios registram sobre queda de cabelo, com o número e a fonte.
  • Por que a queda aparece três meses depois e não durante a fase mais difícil.
  • O que a proteína tem a ver com isso, e por que ela é o item mais decisivo.
  • Quando a queda de cabelo não é esse quadro e pede investigação.

O objetivo é tirar essa queixa do terreno do palpite e colocá-la no terreno da conduta, que é onde ela se resolve.

Queda de cabelo na caneta emagrecedora: o que dizem os dados

O rótulo americano do Wegovy, a semaglutida aprovada para controle de peso, lista queda de cabelo na tabela de reações adversas dos ensaios de redução de peso em adultos: 3% de quem usou a medicação, contra 1% de quem recebeu placebo, num conjunto com 2.116 pacientes no grupo placebo.

Esse número contém a resposta inteira. Três por cento não é zero, e é por isso que a queda de cabelo aparece no rótulo. Mas um por cento das pessoas que tomaram placebo também relatou queda, e essas não receberam medicação nenhuma. O que elas tinham em comum com o outro grupo era estar num programa de emagrecimento, perdendo peso.

A diferença entre 3% e 1% é pequena, e é bem explicada por uma coisa simples: quem perdeu mais peso, e mais rápido, teve mais queda. O gatilho principal não é a molécula. É a velocidade da mudança.

O mecanismo tem nome: eflúvio telógeno

O cabelo não cresce de forma contínua. Cada fio passa por uma fase de crescimento, que dura anos, e depois entra numa fase de repouso, ao fim da qual ele cai e é substituído. Em condições normais, os fios estão dessincronizados: uma parte pequena está sempre em repouso, e por isso a queda diária passa despercebida.

O eflúvio telógeno é o que acontece quando um estresse metabólico empurra uma proporção grande de fios para a fase de repouso ao mesmo tempo. Eles não caem naquele momento. Ficam parados por cerca de dois a três meses e caem depois, todos juntos. Por isso a queda parece surgir do nada, num momento em que a pessoa já está se sentindo melhor.

É o mesmo mecanismo que produz queda de cabelo depois de um parto, de uma cirurgia grande, de uma infecção com febre alta, de cirurgia bariátrica e em dietas muito restritivas. Nenhuma dessas situações envolve caneta emagrecedora, e todas produzem a mesma queixa no mesmo intervalo de tempo.

Duas consequências práticas saem daí. A primeira: o que causou a queda de hoje aconteceu há dois ou três meses, o que muda a pergunta de "o que estou fazendo de errado" para "o que aconteceu no trimestre passado". A segunda: o folículo não morreu. Ele está em repouso, e o quadro tende a se resolver quando o gatilho é corrigido.

Por que a proteína é o item mais decisivo

O fio de cabelo é feito de queratina, que é proteína. Quando a ingestão de proteína cai muito, o organismo prioriza o que é vital, e o cabelo não está nessa lista.

E aqui está o problema específico desse tratamento. O apetite diminui de verdade, a quantidade total de comida cai, e a proteína costuma ser o primeiro item a sumir do prato, porque é o alimento que mais sacia e o que mais exige mastigação e volume. A pessoa acha que está comendo pouco de tudo, quando na verdade está comendo pouquíssima proteína e mantendo o resto.

Some-se a isso a perda de massa muscular que acompanha qualquer emagrecimento rápido não acompanhado, e o quadro fica completo: pouco aporte de proteína, alta demanda, e um folículo que entra em repouso.

O que costuma entrar na conversa, e que é decisão de quem acompanha o caso, não de internet:

  • Garantir proteína em todas as refeições, distribuída ao longo do dia e não concentrada em uma só.
  • Verificar ferro e ferritina, porque ferritina baixa é uma das causas mais comuns de queda difusa, especialmente em mulheres que menstruam.
  • Verificar a tireoide, já que alteração tireoidiana produz queda de cabelo por conta própria e é frequente o suficiente para entrar na investigação.
  • Checar vitamina B12 e zinco, que também caem quando o volume alimentar despenca.
  • Não iniciar suplemento por conta própria antes do exame. Suplementar ferro sem dosar é a forma mais rápida de mascarar o resultado e de errar a dose.

Uma medida adicional, que quase nunca é lembrada: desacelerar o ritmo da perda de peso. Quando a queda é acentuada e a velocidade está alta, segurar a dose atual em vez de subir costuma resolver duas coisas ao mesmo tempo, e o raciocínio está em dose e titulação individual.

Quando a queda de cabelo não é esse quadro

Nem toda queda é eflúvio telógeno, e algumas características tiram o caso desse desenho.

  • Falha em áreas circulares e bem delimitadas, com couro cabeludo liso ao redor. É outro quadro e pede avaliação dermatológica.
  • Vermelhidão, descamação, dor ou coceira no couro cabeludo. O eflúvio telógeno não inflama o couro cabeludo.
  • Queda que não melhora depois de seis meses, com peso já estabilizado e proteína adequada.
  • Queda acompanhada de unhas quebradiças, cansaço extremo, pele muito seca e intolerância ao frio. Esse conjunto aponta para investigação de tireoide e de anemia, não para o tratamento em si.
  • Perda de pelos em outras partes do corpo além do couro cabeludo. Também sai do padrão e merece consulta específica.

Em qualquer desses casos, o encaminhamento é uma avaliação dedicada, e não um ajuste de dieta. E vale a regra que atravessa o tratamento: todo efeito colateral deve ser informado ao médico responsável, inclusive o que passou sozinho. A queda de cabelo em particular é subnotificada, porque parece estética e as pessoas têm receio de que seja motivo para interromper o tratamento. Quase nunca é, e o relato precoce é o que permite corrigir a causa antes de o quadro se instalar.

Dr. José Rogério da Silva, CRM-SP 172.346, RQE 78622.

O essencial

  • No rótulo do Wegovy, queda de cabelo apareceu em 3% de quem usou a medicação e em 1% de quem recebeu placebo, nos ensaios de redução de peso em adultos.
  • O fato de o placebo também registrar queda indica que o gatilho principal é a perda de peso rápida, não a molécula.
  • O mecanismo é o eflúvio telógeno: um estresse metabólico empurra muitos fios para a fase de repouso ao mesmo tempo, e eles caem juntos dois a três meses depois.
  • O mesmo quadro aparece após parto, cirurgia, infecção com febre alta e cirurgia bariátrica, sem medicação nenhuma envolvida.
  • Proteína insuficiente é o fator corrigível mais importante, e costuma ser o primeiro item a sumir do prato quando o apetite cai.
  • Ferro, ferritina, tireoide, B12 e zinco entram na investigação, e suplementar antes de dosar atrapalha o diagnóstico.
  • Falhas circulares, couro cabeludo inflamado ou queda que persiste além de seis meses saem desse padrão e pedem avaliação dedicada.

O que ainda não está estabelecido

Falta uma resposta clara para uma pergunta prática: quanto da queda é atribuível à velocidade da perda de peso e quanto teria alguma contribuição direta da medicação. Os ensaios não foram desenhados para separar as duas coisas, e o desenho que separaria exigiria comparar pessoas perdendo peso na mesma velocidade por métodos diferentes.

Até que esse estudo exista, a conduta continua a mesma, porque ela não muda com a resposta: corrigir proteína, investigar carências e ajustar o ritmo.

Nada aqui substitui uma consulta. Cada caso tem história, exames e outros remédios em uso, e é isso que decide a conduta. O panorama completo do que aparece durante o tratamento está em efeitos colaterais da caneta emagrecedora.

Perguntas frequentes

A caneta emagrecedora causa queda de cabelo?

Diretamente, quase nunca. No rótulo do Wegovy, queda de cabelo foi registrada em 3% de quem usou a medicação e em 1% de quem recebeu placebo nos ensaios de redução de peso em adultos. O fato de haver relato também no grupo placebo, que não recebeu medicação, aponta a perda de peso rápida como gatilho principal, por um mecanismo chamado eflúvio telógeno.

Por que a queda começou só no terceiro mês?

Porque o eflúvio telógeno tem esse atraso embutido. O estresse metabólico empurra uma proporção grande de fios para a fase de repouso, eles permanecem parados por cerca de dois a três meses e só então caem, todos juntos. Por isso a queda de hoje reflete o que aconteceu no trimestre anterior, e não o que você está fazendo esta semana.

O cabelo volta a crescer?

Na maior parte dos casos, sim. No eflúvio telógeno o folículo entra em repouso e não é destruído, e o quadro tende a se resolver quando o gatilho é corrigido, com a velocidade da perda de peso ajustada e a proteína adequada. A recuperação é lenta, acompanha o ritmo de crescimento do fio e não é imediata depois da correção.

Quanto de proteína eu preciso comer?

Não existe um número único que sirva para todo mundo, porque depende do peso, da idade, da função dos rins e do que mais está em curso. O que vale como princípio é garantir proteína em todas as refeições, distribuída ao longo do dia, em vez de concentrada em uma só. A quantidade certa para o seu caso é definida na consulta, com o acompanhamento nutricional junto.

Devo tomar suplemento para cabelo?

Não antes de dosar. Ferritina baixa, alteração de tireoide, B12 e zinco são causas frequentes de queda difusa, e cada uma tem tratamento próprio. Começar um suplemento genérico antes do exame mascara o resultado e adia o diagnóstico correto. O caminho é levar a queixa ao médico que acompanha, pedir a investigação e tratar o que aparecer.

Ficou com alguma dúvida sobre o seu caso?

O acompanhamento é feito por telemedicina, em todo o Brasil, com médico, nutrição, psicologia e enfermagem na mesma equipe.

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