
As canetas emagrecedoras funcionam? O que os estudos mostram e o que eles não prometem
Dr. José Rogério da SilvaMédico cardiologista · CRM-SP 172.346 · RQE 78622Publicado em 18 de setembro de 2026As canetas emagrecedoras funcionam? O que os estudos mostram e o que eles não prometem
Funcionam. Essa é a resposta curta, e ela é chata porque não é a resposta que a pergunta esconde.
Quem digita "as canetas emagrecedoras funcionam" quase nunca quer saber se a molécula tem efeito mensurável em ensaio clínico. Quer saber se vai funcionar para ela, quanto, por quanto tempo e a que custo. E esta é a parte que os estudos não respondem, não por má vontade, mas porque não foram desenhados para isso.
Vale a pena separar as duas coisas com calma, porque quase toda decepção com esse tratamento nasce da confusão entre elas.
O que você vai encontrar aqui
- O que os três maiores ensaios da classe realmente mediram, com número de participantes e duração.
- Por que o resultado é uma distribuição de respostas e não um número único.
- O que ficou fora dos estudos: horizonte de tempo, previsão individual e o que acontece depois.
- Como avaliar, no seu caso, se o tratamento está funcionando.
Ao fim você vai saber ler uma manchete sobre essa classe de medicação sem depender de quem escreveu a manchete.
As canetas emagrecedoras funcionam: o que os ensaios mediram
Três estudos sustentam boa parte do que se sabe hoje, e cada um respondeu uma pergunta diferente.
O STEP 1 acompanhou 1.961 adultos com sobrepeso ou obesidade sem diabetes por 68 semanas, comparando semaglutida 2,4 mg com placebo, e foi publicado no New England Journal of Medicine em 2021. Os dois grupos receberam orientação de estilo de vida. O resultado foi publicado como proporção de gente que chegou a cada patamar: 86,4% reduziram pelo menos 5% do peso corporal, contra 31,5% no placebo; 69,1% chegaram a 10%, contra 12,0%; e 50,5% chegaram a 15%, contra 4,9%.
O SURMOUNT-1 testou a tirzepatida em 2.539 adultos com obesidade e saiu no mesmo periódico em 2022. Além do peso, ele documentou com cuidado os efeitos adversos, e é dele que vêm as taxas de náusea, entre 24,6% e 33,3% conforme a dose.
O SELECT é o que mudou a conversa. Foram 17.604 participantes com doença cardiovascular estabelecida e sobrepeso ou obesidade, sem diabetes, seguidos por cerca de 40 meses, com resultado publicado em 2023. A semaglutida 2,4 mg reduziu em 20% o desfecho combinado de morte cardiovascular, infarto não fatal e AVC não fatal, com razão de risco de 0,80 e intervalo de confiança de 95% entre 0,72 e 0,90.
Repare no que o terceiro mediu. Infarto e AVC. É o desfecho mais duro que essa classe produziu, e ele não tem nada a ver com estética.
O que os ensaios não prometem
Aqui começa a parte que raramente aparece.
Não prometem um número para você. No STEP 1, cerca de um em cada sete participantes não chegou nem a 5% de redução, com a mesma medicação, a mesma dose e o mesmo acompanhamento. A resposta varia muito entre pessoas, e o estudo mediu essa variação em vez de escondê-la. O detalhamento está em quantos quilos se perde com a caneta.
Não prometem que o resultado se sustenta sozinho. Os ensaios principais duraram de 68 a 72 semanas. O que acontece na interrupção foi medido em outros estudos, e o que eles mostram está em o que acontece quando se para a caneta.
Não medem só gordura. Os subestudos de composição corporal mostraram que cerca de um quarto do peso perdido é massa magra, proporção parecida com a de qualquer perda de peso significativa. Isso não invalida o tratamento, mas define como ele precisa ser conduzido, com proteína e força desde o começo, como explica perder peso e perder músculo não são a mesma coisa.
Não foram feitos sem o resto do tratamento. Este é o ponto mais ignorado de todos. Em todos esses ensaios, os participantes dos dois grupos receberam consultas regulares, orientação alimentar e estímulo a atividade física durante mais de um ano. No STEP 1 o grupo placebo, que não recebeu medicação nenhuma, teve redução média de 2,0% do peso, e uma parcela dele passou dos 5%. A medicação foi testada em cima de uma estrutura de acompanhamento, e não sozinha.
Quem usa a caneta sem essa estrutura não está replicando o estudo. Está testando outra coisa.
Por que "funciona" é uma palavra insuficiente
Funcionar para quê é a pergunta que falta.
Para reduzir peso corporal em nível populacional, funciona, e os números acima mostram o tamanho do efeito. Para reduzir risco cardiovascular em quem já tem doença estabelecida, funciona, e o SELECT mostrou. Para melhorar glicemia, pressão e outros marcadores, funciona.
Para produzir um corpo específico em um prazo específico, ninguém sabe, e a Resolução CFM 2.336/2023 proíbe no artigo 11 garantir, prometer ou insinuar bons resultados de tratamento. Quando um anúncio entrega esse número, ele não está sendo mais transparente que o seu médico. Está fazendo o que o seu médico não pode fazer.
E existe o custo, que também é parte da resposta honesta. Efeitos adversos digestivos são frequentes, sobretudo na troca de dose, e a lista completa está em efeitos colaterais da caneta. Todo efeito colateral deve ser informado ao médico que acompanha, inclusive quando passou sozinho, porque é a soma desses relatos que mostra se a dose está adequada.
Como saber se está funcionando no seu caso
Defina o alvo antes de começar. Se o objetivo é pressão, o que responde é a pressão. Se é gordura no fígado, é o exame de imagem e as enzimas hepáticas. Se é glicemia, é a hemoglobina glicada. Se é risco cardiovascular, o desfecho é longo e o acompanhamento também.
Combine com quem acompanha quais indicadores serão medidos, com que frequência, e em quanto tempo faz sentido reavaliar. Julgar um tratamento crônico por quatro semanas de balança é o erro mais comum que se vê no consultório.
E aceite o desconforto de não ter o número antecipado. Ele não existe. O que existe é uma faixa larga, uma explicação para a largura dela e um plano de reavaliação.
Dr. José Rogério da Silva, CRM-SP 172.346, RQE 78622.
O essencial
- No STEP 1, com 1.961 participantes em 68 semanas, 86,4% reduziram ao menos 5% do peso, 69,1% ao menos 10% e 50,5% ao menos 15%.
- Cerca de um em cada sete participantes do STEP 1 não chegou aos 5%, o que mostra o tamanho da variação entre pessoas.
- No SELECT, com 17.604 participantes e cerca de 40 meses, houve redução de 20% em morte cardiovascular, infarto e AVC, com razão de risco de 0,80.
- Em todos os ensaios a medicação foi testada em cima de acompanhamento estruturado, e o grupo placebo do STEP 1 reduziu 2,0% do peso em média.
- Os estudos não preveem resultado individual, não cobrem horizonte longo e não isolam gordura de massa magra.
- Efeitos adversos são frequentes na troca de dose e devem ser informados ao médico que acompanha, mesmo quando passam sozinhos.
O que ainda falta responder
Falta previsibilidade individual. Não existe hoje exame que diga, antes de começar, quem vai responder bem e quem vai ficar no grupo que não chega aos 5%. Há pesquisa buscando marcadores que separem respondedores de não respondedores, e nada aplicável no consultório ainda.
Falta horizonte. Obesidade é doença crônica e os ensaios pivotais duraram pouco mais de um ano. O uso por cinco ou dez anos está sendo observado agora, em tempo real, com quem começou primeiro.
E falta comparação direta em desfecho duro entre as diferentes moléculas da classe, que é uma pergunta cara e demorada de responder.
Nada aqui substitui uma consulta. Cada caso tem história, exames e outros remédios em uso, e é isso que decide a conduta.
Perguntas frequentes
As canetas emagrecedoras realmente funcionam?
Sim, no sentido em que a pergunta pode ser respondida por ensaio clínico. No STEP 1, com 1.961 participantes em 68 semanas, 86,4% do grupo com semaglutida 2,4 mg reduziram pelo menos 5% do peso corporal, contra 31,5% no placebo. O que os estudos não fazem é prever o resultado de uma pessoa específica, porque a variação entre participantes foi grande dentro do mesmo protocolo.
Existe alguém em quem não funciona?
Existe. No STEP 1, cerca de um em cada sete participantes que recebeu a medicação não alcançou 5% de redução do peso. Não há exame capaz de identificar essas pessoas antes de começar, e é por isso que a reavaliação programada faz parte do tratamento em vez de ser opcional.
O benefício é só estético?
Não. O estudo mais robusto da classe, o SELECT, com 17.604 participantes e cerca de 40 meses de seguimento, mediu morte cardiovascular, infarto não fatal e AVC não fatal, e encontrou redução de 20% nesse desfecho combinado em pessoas com doença cardiovascular estabelecida e excesso de peso, sem diabetes.
Preciso mudar alimentação e exercício se estou usando a medicação?
Nos ensaios, os dois grupos, inclusive o placebo, receberam consultas regulares, orientação alimentar e estímulo a atividade física por mais de um ano. Ou seja, o efeito da medicação foi medido em cima dessa estrutura, e não no lugar dela. Além disso, proteína adequada e treino de força são o que reduz a fatia de massa magra dentro do peso perdido.
Por que os anúncios prometem um número e o médico não?
Porque o número depende de variáveis que ainda não aconteceram no primeiro dia, como dose tolerada, tempo de tratamento e preservação de músculo, e porque a Resolução CFM 2.336/2023 proíbe no artigo 11 garantir, prometer ou insinuar bons resultados de tratamento. Um número prometido é sinal de alerta, não de generosidade.
Ficou com alguma dúvida sobre o seu caso?
O acompanhamento é feito por telemedicina, em todo o Brasil, com médico, nutrição, psicologia e enfermagem na mesma equipe.
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