Dr. Rogério Silva, médico cardiologista e cardionutrologista
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Duas molduras de fotografia vazias lado a lado sobre mesa branca em luz suave, cena sobre o que as fotos de antes e depois nao mostram
Emagrecimento

Por que fotos de antes e depois enganam, e o que olhar no lugar

Por que fotos de antes e depois enganam, e o que olhar no lugar

Duas fotos lado a lado são o formato mais convincente da internet e um dos menos informativos que existem.

Elas enganam não porque alguém necessariamente mentiu, e sim porque o formato não carrega a informação de que você precisa. Uma imagem não diz quanto tempo passou, o que foi feito, quantas pessoas tentaram a mesma coisa e não apareceram na foto, nem o que aconteceu com quem parou depois.

Vale entender o mecanismo, porque ele não vale só para emagrecimento. Vale para qualquer promessa que chega em forma de imagem.

O que você vai encontrar aqui

  • O que uma foto registra além do corpo, e como isso muda o resultado aparente.
  • Por que um par de fotos não tem denominador, e o que isso esconde.
  • O que a Resolução CFM 2.336/2023 exige de uma demonstração de resultado, e por que quase nada do que circula cumpre.
  • Quais indicadores substituem a comparação visual, inclusive para quem quer acompanhar o próprio processo.

Ao fim você vai olhar para qualquer par de imagens com três perguntas na cabeça, e nenhuma delas é "será que é verdade".

Por que fotos de antes e depois enganam mesmo sem edição

Comece pelo caso mais honesto possível: duas fotos reais, da mesma pessoa, sem retoque nenhum.

Ainda assim, a comparação é distorcida por coisas que não têm relação com gordura corporal.

  • Postura e ângulo. Ombro para trás, quadril rodado, câmera acima ou abaixo da linha do umbigo. A mesma barriga muda de tamanho aparente sem que nada tenha mudado no corpo.
  • Luz. Luz frontal achata, luz de cima marca sombra e define contorno. É a variável mais fácil de manipular sem tocar em nenhum software.
  • Hora do dia e conteúdo intestinal. Foto em jejum pela manhã contra foto depois do jantar são dois estados diferentes da mesma pessoa.
  • Água e glicogênio. Retenção varia com sódio, ciclo menstrual, calor e carboidrato do dia anterior, e mexe visivelmente na silhueta em poucos dias.
  • Roupa, bronzeado, corte de cabelo e expressão. Todos empurram a percepção na direção desejada.

Some tudo isso e você tem uma diferença visível entre duas fotos tiradas no mesmo dia. É por isso que fotógrafo de publicidade não precisa de fraude para vender qualquer coisa.

O problema mais grave: não existe denominador

Suponha agora que a foto seja rigorosamente honesta e a diferença seja real. Continua faltando o principal.

Você está vendo uma pessoa que deu certo. Não está vendo quantas fizeram o mesmo e não chegaram lá, quantas abandonaram no caminho por efeito adverso, quantas recuperaram o peso seis meses depois nem quantas tiveram complicação.

Esse viés tem nome em pesquisa clínica, e é o motivo pelo qual série de casos é considerada evidência fraca e ensaio randomizado é considerado evidência forte. O ensaio obriga a contar todo mundo que entrou, inclusive quem não respondeu.

Um exemplo com número. No STEP 1, ensaio com 1.961 adultos com sobrepeso ou obesidade sem diabetes, publicado no New England Journal of Medicine em 2021, cerca de um em cada sete participantes que recebeu a medicação não alcançou nem 5% de redução do peso corporal. Essa sétima pessoa existe, está contada no estudo, e nunca aparece em foto nenhuma.

O que os ensaios mostram, e o que eles deixam de fora, está detalhado em as canetas emagrecedoras funcionam.

E falta a terceira dimensão: o tempo. Uma foto congela um instante. Se ela foi tirada na semana em que o peso estava no ponto mais baixo, ela não informa nada sobre o que veio depois, que é justamente o assunto de o que acontece quando se para a caneta.

O que a norma exige de uma demonstração de resultado

Este ponto surpreende quase todo mundo, inclusive médicos: a Resolução CFM 2.336/2023 não proíbe demonstração de antes e depois. Ela estabelece condições, e são elas que quase nada do que circula cumpre.

O artigo 14 permite o uso de imagem de pacientes com finalidade educativa e, no inciso II, lista o que uma demonstração de resultado precisa respeitar. Entre as exigências:

  • Texto educativo junto da imagem, contendo as indicações terapêuticas, os fatores que influenciam possíveis resultados e a descrição das complicações descritas na literatura científica.
  • Conjunto de imagens contendo evoluções satisfatórias, insatisfatórias e complicações decorrentes da intervenção, e não apenas o caso bem-sucedido.
  • Evolução para diferentes biotipos e faixas etárias, quando aplicável, além de evoluções imediatas, mediatas e tardias.
  • Proibição de qualquer edição, manipulação ou melhoramento das imagens.
  • Anonimato do paciente, mesmo quando houve autorização para divulgação.

Leia a segunda exigência de novo. Uma demonstração regular precisa mostrar também o que não deu certo. É exatamente o denominador que falta no par de fotos.

O mesmo texto, no artigo 11, veda garantir, prometer ou insinuar bons resultados do tratamento, e veda comportamento sensacionalista ou autopromocional. Somando as duas coisas: um par isolado de imagens, escolhido a dedo, sem complicações e sem contexto, não é apenas pouco informativo. É irregular.

O que olhar no lugar da foto

Se a foto não serve, alguma coisa precisa ocupar o lugar dela, porque a vontade de acompanhar o processo é legítima.

Circunferência da cintura, medida sempre no mesmo ponto, no mesmo horário e com a mesma fita. É a medida mais simples associada à gordura visceral, que é a que se relaciona a risco metabólico.

Exames. Pressão arterial, glicemia, hemoglobina glicada, perfil lipídico e enzimas hepáticas. São os números que mudam prognóstico, e não a foto.

Força e função. Levantar de uma cadeira baixa sem apoio, subir um lance de escada sem parar, carregar as compras. Se isso piorou enquanto o peso caía, algo está errado no processo, mesmo que a silhueta esteja melhor. O motivo está em perder peso e perder músculo não são a mesma coisa.

Tendência, não instantâneo. Peso e cintura ao longo de semanas, com a mesma metodologia, dizem muito mais do que qualquer par de pontos escolhidos.

E se algum efeito colateral aparecer no caminho, ele deve ser informado ao médico que acompanha, inclusive quando passou sozinho. É a soma desses relatos que mostra se a dose está adequada, e nenhuma foto captura isso.

As três perguntas que desarmam qualquer imagem

Da próxima vez que uma comparação visual aparecer na sua tela, faça três perguntas em silêncio.

Quantas pessoas fizeram isso e não estão nesta imagem? Quanto tempo separa as duas fotos, e o que aconteceu depois da segunda? E o que exatamente foi feito, incluindo o que não é foto, como acompanhamento, alimentação e treino?

Se a resposta a qualquer uma delas não estiver disponível, a imagem não é evidência. É publicidade, e a decisão sobre o seu corpo merece coisa melhor.

Dr. José Rogério da Silva, CRM-SP 172.346, RQE 78622.

O essencial

  • Postura, luz, hora do dia, retenção de água e roupa produzem diferença visível entre duas fotos tiradas no mesmo dia.
  • Um par de imagens mostra alguém que deu certo e não mostra quantos tentaram, abandonaram ou recuperaram o peso.
  • No STEP 1, com 1.961 participantes, cerca de um em cada sete não alcançou 5% de redução do peso, e essa pessoa nunca aparece em foto.
  • A Resolução CFM 2.336/2023, no artigo 14, exige que demonstrações de antes e depois incluam evoluções insatisfatórias e complicações, texto educativo e nenhuma edição de imagem.
  • O artigo 11 da mesma resolução veda garantir, prometer ou insinuar bons resultados e veda conduta sensacionalista.
  • Cintura, exames, força e tendência ao longo de semanas substituem a comparação visual com vantagem.

O que muda daqui para frente

A fiscalização de publicidade médica em redes sociais é recente e desigual, e a norma é mais nova que o hábito. É provável que os próximos anos tragam mais decisões dos Conselhos Regionais sobre casos concretos, e com elas uma jurisprudência mais clara do que hoje existe.

Do lado da tecnologia, a edição de imagem ficou instantânea e invisível, o que torna a exigência de não manipulação mais difícil de verificar e mais importante de manter.

Enquanto isso, o critério prático que sobra para quem lê é o denominador. Toda vez que ele estiver ausente, a imagem informa sobre quem a publicou, não sobre o que ela mostra.

Nada aqui substitui uma consulta. Cada caso tem história, exames e outros remédios em uso, e é isso que decide a conduta.

Perguntas frequentes

Fotos de antes e depois são proibidas para médicos no Brasil?

Não são proibidas, são condicionadas. A Resolução CFM 2.336/2023, no artigo 14, permite o uso de imagem de pacientes com finalidade educativa, desde que a demonstração venha com texto educativo sobre indicações, fatores que influenciam o resultado e complicações descritas na literatura, e desde que seja apresentada em conjunto de imagens contendo evoluções satisfatórias, insatisfatórias e complicações. Também é vedada qualquer edição das imagens.

Se a foto não tem edição, ela é confiável?

Não necessariamente. Postura, ângulo de câmera, luz, hora do dia, conteúdo intestinal, retenção de água ligada ao sódio e ao carboidrato, roupa e bronzeado produzem diferença perceptível entre duas imagens da mesma pessoa no mesmo dia. Ausência de edição elimina uma das distorções, não todas.

Por que um caso de sucesso não serve como evidência?

Porque falta o denominador. Uma imagem individual não informa quantas pessoas passaram pelo mesmo processo sem alcançar aquele resultado, quantas interromperam por efeito adverso e quantas recuperaram o peso depois. É por isso que série de casos é considerada evidência fraca e ensaio randomizado, que conta todos os participantes, é considerado forte.

Posso tirar fotos para acompanhar o meu próprio processo?

Pode, e o uso pessoal é diferente da publicidade. Para que sirvam de acompanhamento, padronize o que der: mesmo horário, mesma luz, mesma distância, mesma roupa e mesma postura. Ainda assim, combine as fotos com medidas objetivas como circunferência da cintura, exames e testes simples de função, que não dependem de percepção visual.

Qual indicador substitui a comparação visual?

Circunferência da cintura medida sempre da mesma forma, pressão arterial, glicemia e hemoglobina glicada, perfil lipídico, marcadores de fígado e capacidade funcional, como levantar de uma cadeira baixa sem apoio. Acompanhados como tendência ao longo de semanas, esses dados dizem sobre saúde o que a foto não diz sobre nada.

Ficou com alguma dúvida sobre o seu caso?

O acompanhamento é feito por telemedicina, em todo o Brasil, com médico, nutrição, psicologia e enfermagem na mesma equipe.

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