Dr. Rogério Silva, médico cardiologista e cardionutrologista
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Salmão, abacate, castanhas e azeite sobre tábua de madeira, cena sobre alimentação e colesterol alto
Saúde do coração

Colesterol alto: o que o número do exame quer dizer e quando o remédio entra

Colesterol alto: o que o número do exame quer dizer e quando o remédio entra

O exame chega com o colesterol total marcado em vermelho, e a primeira reação é procurar na internet uma dieta para baixar. A segunda é perguntar se "precisa mesmo tomar remédio". As duas perguntas fazem sentido, e as duas começam no lugar errado. Colesterol alto não é um número único, e o mesmo resultado pode ser tranquilo para uma pessoa e preocupante para outra. O que decide é o conjunto: qual fração está alta e qual é o seu risco cardiovascular.

Sou o Dr. José Rogério da Silva, CRM-SP 172.346, RQE 78622, cardiologista e cardionutrólogo. Ler perfil lipídico é rotina no consultório, e é uma das conversas em que mais vejo gente se assustar sem motivo, ou se tranquilizar sem motivo.

O que você vai encontrar aqui

  • O que significa cada linha do exame, e qual delas mais interessa ao cardiologista.
  • Por que a meta do LDL depende do seu risco, com os valores da diretriz brasileira de 2025.
  • O que a evidência mostra sobre baixar o LDL, com o tamanho do benefício medido.
  • Quando a mudança de hábito basta e quando o remédio entra na conversa.

Ao fim, você vai saber olhar o seu exame com as perguntas certas.

Colesterol alto: o que cada linha do exame quer dizer

O perfil lipídico costuma trazer cinco números:

  • Colesterol total, a soma de tudo, que sozinho diz pouco.
  • LDL, o que transporta colesterol para as artérias e participa da formação das placas.
  • HDL, o que faz parte do caminho de volta, e que durante anos foi chamado de "bom".
  • Não-HDL, que é o total menos o HDL e reúne todas as partículas que podem entupir.
  • Triglicerídeos, outra gordura do sangue, muito sensível a açúcar, álcool e peso.

O número que mais pesa na decisão é o LDL. E o motivo não é convenção: é causa. Um consenso da Sociedade Europeia de Aterosclerose reuniu estudos genéticos, coortes e ensaios clínicos com mais de 2 milhões de participantes e concluiu que o LDL causa doença aterosclerótica, e que o risco cresce com o nível e com o tempo de exposição.

Precisa de jejum?

Na maioria dos casos, não. A Diretriz Brasileira de Dislipidemias de 2025 considera aceitável colher a amostra sem jejum para a avaliação inicial. Quando os triglicerídeos vêm muito altos, o médico pode pedir repetição em jejum.

Por que a meta do LDL muda de pessoa para pessoa

Não existe um "LDL normal" que sirva para todos. A diretriz brasileira de 2025 define metas conforme a categoria de risco cardiovascular:

  • Baixo risco: LDL abaixo de 115 mg/dL.
  • Risco intermediário: abaixo de 100 mg/dL.
  • Alto risco: abaixo de 70 mg/dL.
  • Muito alto risco: abaixo de 50 mg/dL.
  • Risco extremo: abaixo de 40 mg/dL.

Um LDL de 110 mg/dL pode estar dentro da meta para uma mulher de 35 anos sem outros fatores de risco, e muito acima dela para um homem que já teve infarto. É por isso que a pergunta "meu colesterol está alto?" só tem resposta depois de outra: qual é o meu risco?

O risco é calculado com idade, sexo, pressão, tabagismo, diabetes, doença renal, história de infarto ou AVC e, cada vez mais, com exames complementares. A mesma diretriz recomenda dosar a lipoproteína(a) ao menos uma vez na vida, quando disponível, porque ela é em grande parte herdada e ajuda a refinar o risco.

Quanto se ganha baixando o LDL

Aqui existe um dos números mais sólidos da cardiologia. A colaboração Cholesterol Treatment Trialists analisou dados individuais de 26 ensaios com cerca de 170 mil participantes. A cada redução de 1 mmol/L no LDL, o que equivale a cerca de 39 mg/dL, a taxa anual de infarto, AVC isquêmico e procedimentos de revascularização caiu um pouco mais de 20%. Não houve aumento de câncer, mesmo nos níveis mais baixos de LDL.

Traduzindo: quanto maior o risco de partida, maior o ganho absoluto de baixar o LDL. É por isso que as metas ficam mais rigorosas nas categorias de risco mais alto.

Tubos de coleta de sangue em estante de laboratório, cena sobre o exame que detecta colesterol alto

Quando a mudança de hábito basta, e quando o remédio entra

A diretriz brasileira abre a parte de prevenção com uma frase direta: a base é a adoção precoce e sustentada de hábitos saudáveis. Na prática, isso significa:

  • Reduzir gordura saturada e eliminar gordura trans, que são as que mais elevam o LDL.
  • Aumentar fibras, com leguminosas, aveia, frutas e verduras.
  • Perder peso quando há excesso, o que ajuda principalmente os triglicerídeos.
  • Atividade física regular, que melhora o perfil lipídico e o risco como um todo.
  • Parar de fumar, que não muda tanto o LDL, mas pesa muito no risco.

Em quem tem risco baixo e LDL pouco acima da meta, isso pode bastar, e o exame é repetido depois de alguns meses. Em quem tem risco alto, muito alto ou extremo, a distância entre o LDL e a meta costuma ser grande demais para a dieta sozinha, e o remédio entra junto com a mudança de hábito, não depois dela.

Um exemplo que se repete: dois irmãos fazem o mesmo exame, com LDL de 150 mg/dL. Um tem 38 anos, não fuma, pressão normal. O outro tem 55, diabetes e colocou um stent há dois anos. O primeiro sai da consulta com orientação alimentar e novo exame em alguns meses. O segundo sai com remédio e meta abaixo de 50. O número era o mesmo; o risco, não.

Há um caso especial: LDL muito alto desde a juventude, ou infarto precoce em parentes próximos, levanta a suspeita de hipercolesterolemia familiar, uma condição genética que exige tratamento desde cedo e avaliação da família.

O que levar para a consulta

Leve o exame completo, e não só o colesterol total. Leve também a lista de remédios, a pressão medida em casa se tiver, e a história da família: quem teve infarto, AVC ou morte súbita, e com que idade. Com isso, a consulta de cardiologia calcula o risco e define a meta que vale para você.

Se já usa remédio para colesterol e sentiu algum efeito, como dor muscular, informe o médico que acompanha, mesmo que tenha passado. Há alternativas e ajustes, e parar por conta própria é o pior caminho.

O essencial

  • O LDL é o número que mais pesa, porque causa doença aterosclerótica de forma proporcional ao nível e ao tempo.
  • A meta de LDL depende do risco: de abaixo de 115 mg/dL no baixo risco a abaixo de 40 mg/dL no risco extremo.
  • Cada redução de cerca de 39 mg/dL no LDL reduziu os grandes eventos vasculares em pouco mais de 20% por ano.
  • O exame inicial pode ser feito sem jejum, e a lipoproteína(a) deve ser dosada ao menos uma vez na vida.
  • Hábito saudável é a base, e em quem tem risco alto o remédio entra junto, não depois.

O que ainda não se sabe

Ainda se discute o melhor jeito de usar exames de imagem, como o escore de cálcio coronário, para reclassificar quem está no meio do caminho entre baixo e alto risco. Também estão em estudo tratamentos voltados especificamente à lipoproteína(a), que hoje serve para estratificar risco, mas ainda não tem meta de tratamento definida.

O que já se sabe é suficiente para agir: conhecer o próprio risco e perseguir a meta certa. Nada aqui substitui uma consulta, e cada caso exige avaliação individual.

Referências

  • Rached FH et al. Diretriz Brasileira de Dislipidemias e Prevenção da Aterosclerose, 2025. Arq Bras Cardiol. 2025;122:e20250640. doi:10.36660/abc.20250640.
  • Ference BA et al. Low-density lipoproteins cause atherosclerotic cardiovascular disease: a consensus statement from the European Atherosclerosis Society Consensus Panel. Eur Heart J. 2017;38:2459-2472. doi:10.1093/eurheartj/ehx144.
  • Cholesterol Treatment Trialists' (CTT) Collaboration. Efficacy and safety of more intensive lowering of LDL cholesterol: a meta-analysis of data from 170,000 participants in 26 randomised trials. Lancet. 2010;376:1670-1681. doi:10.1016/S0140-6736(10)61350-5.

Este conteúdo é informativo e não substitui a consulta médica. Cada caso exige avaliação individual. Responsável técnico: Dr. José Rogério da Silva, CRM-SP 172.346 · RQE 78622.

Perguntas frequentes

Qual é o valor normal do colesterol?

Não existe um valor único que sirva para todos. O número que mais importa é o LDL, e a meta depende do risco cardiovascular: pela diretriz brasileira de 2025, abaixo de 115 mg/dL no baixo risco, 100 no intermediário, 70 no alto, 50 no muito alto e 40 no risco extremo.

Colesterol alto precisa sempre de remédio?

Não. Em quem tem risco baixo e LDL pouco acima da meta, mudança de alimentação, atividade física e controle do peso podem bastar. Em quem tem risco alto, muito alto ou extremo, o remédio costuma entrar junto com a mudança de hábito, porque a distância até a meta é maior.

Preciso fazer jejum para o exame de colesterol?

Na maioria dos casos, não. A diretriz brasileira de 2025 considera aceitável a amostra sem jejum para a avaliação inicial. Se os triglicerídeos vierem muito altos, o médico pode pedir repetição em jejum.

Baixar o LDL reduz mesmo o risco de infarto?

Sim. Uma análise de 26 ensaios com cerca de 170 mil participantes mostrou que cada redução de 1 mmol/L, cerca de 39 mg/dL, diminuiu infarto, AVC isquêmico e revascularização em pouco mais de 20% ao ano, sem aumento de câncer.

O que é lipoproteína(a) e por que medir?

É uma partícula de gordura do sangue, em grande parte herdada, que aumenta o risco cardiovascular. A diretriz brasileira de 2025 recomenda dosá-la ao menos uma vez na vida, quando disponível, para refinar a estimativa de risco.

Guia do Dr. RogérioAntes da CanetaAs páginas de valor que deveriam vir na caixa.Existe uma fase antes da primeira dose. Quase todo mundo pula.Conhecer o guia

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