Dr. Rogério Silva, médico cardiologista e cardionutrologista
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Mãos adultas segurando um dinamômetro manual sobre uma mesa de madeira clara, cena da medida da força de preensão da mão em consultório
Hábitos

Força de preensão da mão: o que o dinamômetro mede e quais são os valores de referência

Força de preensão da mão: o que o dinamômetro mede e quais são os valores de referência

A força de preensão da mão parece pouco para dizer algo sobre o corpo. Mesmo assim, ela é um dos dois testes de força que o consenso europeu de sarcopenia usa para olhar a musculatura. O aparelho que mede é o dinamômetro, e o número que ele devolve vale pouco se o teste for mal feito.

O que você vai encontrar aqui

  • Como se mede a força de preensão com o dinamômetro, passo a passo.
  • Os erros que inflam o número e tiram a comparação.
  • Os cortes do consenso europeu, de onde eles vêm e uma referência brasileira.
  • O que fazer sem aparelho e como ler um número baixo.

A ideia é que você saiba o que o número significa e o que ele não significa.

Força de preensão da mão: como o teste é feito

O consenso europeu (EWGSOP2) pede um dinamômetro manual calibrado, em condições de teste bem definidas, com valores de referência de populações apropriadas. O roteiro adotado aqui:

  1. Sentado, com as costas apoiadas, o ombro relaxado e o cotovelo dobrado junto ao corpo.
  2. Ajuste a pegada do aparelho ao tamanho da mão antes de apertar.
  3. Aperte com força máxima por alguns segundos, sem prender a respiração.
  4. Faça duas ou três vezes com cada mão, descansando entre as tentativas.
  5. Anote o maior valor, em quilos, e diga qual mão.

Os protocolos publicados variam: há quem use o maior valor e quem use a média, uma ou três tentativas, uma mão ou as duas. Uma revisão de 2011 mostrou que essa variação pode mudar o valor registrado. Por isso, o método importa menos do que manter sempre o mesmo.

O que infla o número

  • Ajudar com o corpo: encostar o cotovelo na mesa, jogar o ombro para a frente, prender o ar.
  • Trocar de aparelho. Em dados de 12 estudos britânicos, as curvas de referência diferiram menos de 10% entre tipos de dinamômetro, uma diferença pequena, mas que existe.
  • Misturar as mãos ou esquecer de anotar qual foi usada.
  • Mudar a posição. Nos mesmos dados, medir sentado ou em pé deu curvas parecidas, mas o melhor é padronizar.

Em todos esses casos, o número muda sem que a força tenha mudado, e deixa de servir para comparar com o seu próprio resultado depois.

Valores de referência: qual é considerado baixo

Pelo EWGSOP2, força baixa é abaixo de 27 kg em homens e abaixo de 16 kg em mulheres. Esses cortes vêm de dados britânicos. Dodds e colaboradores (PLoS One, 2014) reuniram 12 estudos com 49.964 pessoas e definiram força fraca como 2,5 desvios-padrão abaixo da média do pico da vida adulta. É esse critério que dá 27 kg para homens e 16 kg para mulheres.

Nos mesmos dados, a mediana no auge foi de 51 kg nos homens, entre 29 e 39 anos, e de 31 kg nas mulheres, entre 26 e 42 anos. Aos 80 anos, a força fraca atingia 23% dos homens e 27% das mulheres.

Existe referência brasileira. Num inquérito domiciliar em Niterói, com 1.122 homens e 1.928 mulheres a partir de 20 anos, cada pessoa apertou três vezes com cada mão, num dinamômetro mecânico, e valeu o maior valor. A média na mão direita foi de 42,8 kg nos homens e de 25,3 kg nas mulheres. A força teve pico na quarta década de vida e depois caiu, de forma significativa a partir dos 40 anos nas mulheres e dos 50 nos homens (Schlüssel e colaboradores, 2008). Os dados são de uma cidade, e não retratam o país inteiro.

O próprio consenso pede referências de populações apropriadas e reconhece que, para medidas que dependem da estatura, como a força, ainda faltam estudos para saber se valores de corte específicos por sexo e por região melhoram a previsão de desfechos. E, no consenso, força baixa torna a sarcopenia provável. Ela só se confirma com a avaliação da quantidade ou da qualidade do músculo.

Sem dinamômetro: deixe em branco

Nem sempre há um aparelho por perto, e isso não invalida o acompanhamento. Deixe a linha em branco e siga. O teste de sentar e levantar cinco vezes, sozinho, já serve para acompanhar a sua tendência.

Se o serviço que atende você tiver o aparelho, peça o número e anote, e use sempre o mesmo. Improvisar com objetos de casa não vale: sem calibração, o número não compara com nenhuma tabela, nem com você mesmo.

Um número baixo é sinal para conversar

Valor abaixo do corte não é rótulo. O consenso manda considerar outras causas para força baixa, como depressão, AVC, problemas de equilíbrio e doenças vasculares periféricas, e por isso o passo seguinte é a avaliação clínica.

Em quem está emagrecendo, o número conversa com perder peso e perder músculo não são a mesma coisa e com exercício durante o tratamento.

Se o aperto provocar dor na mão, no punho ou no cotovelo, pare e converse com o médico antes de repetir.

Uma coisa é força que diminui ao longo de meses. Outra, bem diferente, é fraqueza ou formigamento súbito em um lado do corpo (rosto, braço ou perna) ou alteração da fala. Isso é emergência: ligue para o SAMU, 192.

O que anotar para comparar depois

Anote o valor, a mão, a data e o aparelho usado, e repita a cada dois ou três meses, nas mesmas condições. O valor está na tendência. Nada aqui substitui uma consulta, e cada caso exige avaliação individual.

O essencial

  • O consenso europeu considera força baixa abaixo de 27 kg em homens e abaixo de 16 kg em mulheres.
  • Esses cortes correspondem a 2,5 desvios-padrão abaixo do pico da vida adulta em dados britânicos.
  • Cotovelo na mesa, ombro para a frente e ar preso inflam o número. Use sempre o mesmo aparelho e o mesmo método.
  • Sem dinamômetro, deixe a linha em branco: o teste da cadeira acompanha a tendência.
  • Valor baixo é sinal para conversar, e não diagnóstico.

O que ainda não se sabe

Os cortes de 27 e 16 kg vêm de dados britânicos, e o próprio consenso reconhece que alguns pontos de corte ainda são arbitrários e que faltam estudos para saber se valores de corte específicos por sexo e por região melhoram a previsão de desfechos. A relação da força de preensão com desfechos do coração é assunto à parte, e não é tratada aqui.

Referências

  • Cruz-Jentoft AJ et al. Sarcopenia: revised European consensus on definition and diagnosis (EWGSOP2). Age Ageing. 2019;48(1):16-31. doi:10.1093/ageing/afy169.
  • Dodds RM et al. Grip strength across the life course: normative data from twelve British studies. PLoS One. 2014;9(12):e113637. doi:10.1371/journal.pone.0113637.
  • Roberts HC et al. A review of the measurement of grip strength in clinical and epidemiological studies: towards a standardised approach. Age Ageing. 2011;40(4):423-429. doi:10.1093/ageing/afr051.
  • Schlüssel MM et al. Reference values of handgrip dynamometry of healthy adults: a population-based study. Clin Nutr. 2008;27(4):601-607. doi:10.1016/j.clnu.2008.04.004.
  • Ministério da Saúde. Acidente Vascular Cerebral (AVC). gov.br/saude.

Dr. Rogério Silva. Cardiologista, especialista em Clínica Médica, pós-graduado em Neurociência e Psicologia Positiva, com formação em cardionutrologia. Autor de A Dor que os Exames Não Mostram. @drrogeriosilvacardio

Este conteúdo é informativo e não substitui a consulta médica. Cada caso exige avaliação individual. Responsável técnico: Dr. José Rogério da Silva, CRM-SP 172.346 · RQE 78622.

Perguntas frequentes

Qual valor de força de preensão é considerado baixo?

No consenso europeu, abaixo de 27 kg em homens e abaixo de 16 kg em mulheres. É um sinal para conversar com o médico, e não um diagnóstico.

Como se faz o teste de força de preensão manual?

Sentado, com as costas apoiadas, o ombro relaxado e o cotovelo dobrado junto ao corpo, aperta-se o dinamômetro com força máxima por alguns segundos, sem prender a respiração. Faz-se duas ou três vezes com cada mão, e anota-se o maior valor.

Posso medir a força da mão sem dinamômetro?

Não de forma que valha como medida. Sem aparelho calibrado, o número não compara com tabelas nem com você mesmo. Deixe a linha em branco e acompanhe pelo teste de sentar e levantar.

Qual mão devo usar e quantas tentativas valem?

Registra-se cada mão, dizendo qual foi. O roteiro adota duas ou três tentativas e o maior valor, e o essencial é repetir o mesmo método sempre.

Força de preensão baixa quer dizer que tenho sarcopenia?

Não. Força baixa torna a sarcopenia provável, e a confirmação exige avaliar a quantidade ou a qualidade do músculo. Quem confirma é o médico.

Guia do Dr. RogérioAntes da CanetaAs páginas de valor que deveriam vir na caixa.Existe uma fase antes da primeira dose. Quase todo mundo pula.Conhecer o guia

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