Dr. Rogério Silva, médico cardiologista e cardionutrologista
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Vaso de folhagem verde e regador de metal sobre prateleira de madeira junto a janela em luz da manha, cena sobre o cuidado continuo em vez de um tratamento com prazo
Emagrecimento

Tratamento crônico: por que a conversa não é sobre quantos meses

Tratamento crônico: por que a conversa não é sobre quantos meses

Ela aparece quase sempre nos últimos cinco minutos da primeira consulta, quando a receita já está na mão: doutor, por quanto tempo eu vou precisar tomar isso?

É uma pergunta honesta e compreensível. Ninguém quer depender de nada. O problema é que ela carrega uma premissa embutida, a de que existe um número de meses depois do qual o problema estará resolvido, e é essa premissa que os ensaios de retirada desmontaram.

Trocar essa pergunta por outra melhor não é jogo de palavras. Muda o que se combina no começo, muda o que se constrói no meio e muda a chance de o resultado sobreviver ao fim.

O que você vai encontrar aqui

  • Por que "quantos meses" pressupõe algo que a obesidade não é.
  • O que dois ensaios mediram no ano seguinte à retirada da medicação.
  • O que se ganha enquanto se trata, e o que exatamente regride quando se para.
  • A pergunta que substitui essa, e o que precisa estar de pé para respondê-la.

Ao fim você vai ter uma conversa melhor para levar ao consultório, com uma expectativa que não vai ser desmentida daqui a um ano.

Por que "quantos meses" é a pergunta errada

A obesidade é classificada como doença crônica. Isso não é retórica de bula, é descrição de comportamento: ela tem tendência a recidiva, ela responde a tratamento enquanto o tratamento existe, e ela volta a se manifestar quando ele sai.

Ninguém pergunta ao cardiologista por quantos meses vai tomar o remédio da pressão. A pergunta soa estranha porque todo mundo já entendeu que o remédio controla a pressão, não cura a hipertensão, e que suspender devolve o número anterior.

Com peso, a expectativa é outra. Peso é lido como resultado de esforço e não como manifestação de doença, e por isso o tratamento é imaginado como um curso com data de formatura. Quem passou anos ouvindo que o problema era falta de disciplina chega com essa lente já montada.

Desmontá-la é parte do tratamento. Sem isso, a interrupção acontece cedo, sem plano, e o retorno do peso é lido como fracasso pessoal.

Tratamento crônico: o que os ensaios de retirada mostraram

Dois estudos responderam a essa pergunta com desenhos diferentes e chegaram na mesma direção.

Na extensão do STEP 1, publicada em Diabetes, Obesity and Metabolism em 2022, 327 participantes do estudo original foram acompanhados por mais um ano sem medicação e sem a intervenção de estilo de vida do ensaio. Na semana 120, o grupo que havia usado semaglutida tinha recuperado 11,6 pontos percentuais do peso reduzido, cerca de dois terços de tudo o que havia saído.

No SURMOUNT-4, publicado no JAMA em dezembro de 2023, 670 participantes fizeram 36 semanas de tratamento aberto com tirzepatida e depois foram sorteados para continuar a medicação ou receber placebo por mais 52 semanas. Até a semana 88, quem continuou teve variação média de peso de 5,5% para baixo, e quem passou ao placebo teve variação de 14,0% para cima. O dado que resume tudo: 89,5% de quem continuou mantinha ao menos 80% da redução inicial, contra 16,6% de quem parou.

O detalhamento desses dois estudos, com o mecanismo por trás do retorno, está em o que acontece quando se para a caneta.

Houve variação individual relevante nos dois ensaios, e parte das pessoas recuperou pouco. Ainda não existe forma de identificar antes quem está nesse grupo, e é honesto dizer isso em vez de prometer que você será a exceção.

O que se ganha enquanto se trata, e o que regride ao parar

Este é o ponto que a conversa sobre meses costuma esconder.

O benefício do tratamento não é estético, é clínico, e ele foi medido em uso continuado. No SELECT, publicado no New England Journal of Medicine em 2023 com 17.604 participantes com doença cardiovascular estabelecida e excesso de peso, sem diabetes, acompanhados por cerca de 40 meses, houve redução de 20% no desfecho combinado de morte cardiovascular, infarto não fatal e AVC não fatal.

Esse resultado foi observado em quem estava usando, não em quem tinha usado.

E, na direção contrária, a extensão do STEP 1 mostrou que os parâmetros cardiometabólicos que haviam melhorado retornaram na direção dos valores iniciais junto com o peso. Pressão, perfil lipídico e controle glicêmico seguem a mesma curva.

Ou seja, a pergunta "por quantos meses" é, na prática, a pergunta "por quanto tempo eu quero manter esse benefício". Escrita assim, ela se responde sozinha em muitos casos.

Caixa de comprimidos semanal aberta sobre uma mesa ao lado de um aparelho de pressão, cena que representa o tratamento crônico de uma doença que exige continuidade

Tratamento crônico não significa a mesma medicação para sempre

Aqui vale desfazer o mal-entendido oposto, que é igualmente comum.

Dizer que o tratamento é crônico não é dizer que a pessoa tomará a mesma dose da mesma medicação pelo resto da vida. Significa que o cuidado é contínuo, e que ele muda de formato ao longo do tempo.

  • A dose pode mudar. Perda ativa e manutenção não pedem a mesma coisa, assunto de manutenção depois da meta.
  • A medicação pode sair, com plano. Há motivos legítimos e às vezes obrigatórios para interromper, e saída combinada é diferente de interrupção súbita.
  • A estrutura não sai. Proteína garantida e treino de força continuam de pé independentemente da medicação, como em o que comer durante o tratamento e exercício durante o tratamento.
  • O acompanhamento continua. Cintura, pressão, exames e função nos meses seguintes a qualquer mudança, porque é assim que se percebe o retorno cedo.
  • Efeito colateral não é motivo automático para encerrar. Ele deve ser informado ao médico que acompanha, mesmo que tenha passado sozinho, porque muitas vezes se resolve com ajuste de dose.

O peso que volta depois de uma retirada é comportamento documentado da doença, descrito em efeito rebote, e não veredito sobre o caráter de quem parou.

A conversa que vale ter na primeira consulta

Troque a pergunta por esta: qual é o plano para quando este tratamento mudar de fase, e o que precisa estar construído até lá?

A resposta tem duas partes. A primeira é clínica: metas, exames e critérios de ajuste. A segunda é sua, sobre o que da rotina alimentar e do treino você sustenta num mês ruim, porque é isso que sobra quando a motivação acaba.

E se a resposta honesta for que o tratamento tende a ser longo, isso precisa ser dito com todas as letras antes da primeira aplicação. Expectativa desalinhada é a principal causa de abandono precoce que eu vejo, e é evitável com uma conversa de dez minutos.

Dr. José Rogério da Silva, CRM-SP 172.346, RQE 78622.

O essencial

  • A obesidade é doença crônica, com tendência a recidiva quando o tratamento sai, e não um curso com data de formatura.
  • Na extensão do STEP 1, com 327 participantes até a semana 120, houve recuperação de 11,6 pontos percentuais do peso reduzido, cerca de dois terços do total.
  • No SURMOUNT-4, com 670 participantes, 89,5% de quem continuou manteve ao menos 80% da redução inicial, contra 16,6% de quem passou ao placebo.
  • No SELECT, com 17.604 participantes em cerca de 40 meses, houve redução de 20% no desfecho combinado cardiovascular, medida durante o uso continuado.
  • Os parâmetros cardiometabólicos que melhoram durante o tratamento retornam na direção dos valores iniciais quando ele é interrompido.
  • Tratamento crônico não significa a mesma dose para sempre, significa cuidado contínuo com formato que muda.
  • Efeito colateral deve ser informado ao médico que acompanha, mesmo que passe sozinho, porque costuma se resolver com ajuste e não com interrupção.

O que ainda não se sabe

Falta identificar quem consegue sustentar o resultado sem medicação. A variação entre participantes nos ensaios de retirada foi grande, e não há como prever antes em qual grupo alguém está.

Falta comparar formatos de continuidade. Reduzir a dose, espaçar aplicações, alternar períodos, tudo isso é praticado e nenhuma dessas estratégias foi testada em ensaio desenhado para essa pergunta.

E falta horizonte: a extensão do STEP 1 seguiu um ano após a retirada, o SURMOUNT-4 seguiu 52 semanas, e o que acontece em cinco ou dez anos está sendo observado agora.

Nada aqui substitui uma consulta. Cada caso tem história, exames e outros remédios em uso, e é isso que decide por quanto tempo e em qual formato.

Perguntas frequentes

Por quanto tempo preciso usar a medicação?

Não existe um número de meses válido para todo mundo, e essa é a resposta honesta. A obesidade se comporta como doença crônica, e os ensaios de retirada mostram recuperação de boa parte do peso na maioria das pessoas dentro de aproximadamente um ano sem tratamento. A duração se define caso a caso, em função de objetivo clínico, resposta, tolerância e do que a pessoa consegue sustentar, e é revista ao longo do acompanhamento.

Vou ter que tomar isso para sempre?

Tratamento crônico significa cuidado contínuo, não necessariamente a mesma dose da mesma medicação pelo resto da vida. A dose pode mudar entre a fase de perda ativa e a de manutenção, a medicação pode sair com plano, e o que não sai é a estrutura de alimentação, treino e acompanhamento. Existem motivos legítimos para interromper, e saída combinada é diferente de interrupção súbita.

O que acontece se eu parar?

Na extensão do STEP 1, com 327 participantes acompanhados até a semana 120, houve recuperação de 11,6 pontos percentuais do peso reduzido, cerca de dois terços do total. No SURMOUNT-4, com 670 participantes, apenas 16,6% de quem passou ao placebo mantinha ao menos 80% da redução inicial na semana 88, contra 89,5% de quem continuou. Junto com o peso, os parâmetros cardiometabólicos também retornam na direção dos valores iniciais.

O benefício para o coração continua depois que eu parar?

Os dados disponíveis medem o benefício durante o uso. No SELECT, com 17.604 participantes com doença cardiovascular estabelecida e excesso de peso acompanhados por cerca de 40 meses, houve redução de 20% no desfecho combinado de morte cardiovascular, infarto não fatal e AVC não fatal, observada em quem estava usando. Não há evidência de que esse benefício permaneça após a interrupção com retorno do peso.

Se o peso volta quando eu parar, o tratamento valeu a pena?

Depende do que vem depois. Durante o uso, os benefícios clínicos são reais e mensuráveis, e os estudos mostram que eles acompanham o peso. É por isso que a conversa útil não é sobre quantos meses, e sim sobre o que estará construído quando o formato do tratamento mudar: rotina alimentar sustentável, treino de força estabelecido e acompanhamento mantido.

Guia do Dr. RogérioAntes da CanetaAs 29 páginas que deviam vir dentro da caixa.Existe uma fase antes da primeira dose. Quase todo mundo pula.Conhecer o guia

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