Dr. Rogério Silva, médico cardiologista e cardionutrologista
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Aparelho para medir a força da mão sobre uma mesa de madeira, com caderno fechado e lápis ao lado, em um ambiente claro de consulta.
Saúde do coração

Força da mão e coração: o que o estudo PURE encontrou sobre aperto de mão e risco cardiovascular

Força da mão e coração: o que o estudo PURE encontrou sobre aperto de mão e risco cardiovascular

Em alguns consultórios, ao lado da fita métrica e do aparelho de pressão, aparece um instrumento que parece de outro assunto: o dinamômetro, que mede a força da mão quando a pessoa aperta. A pergunta que vem em seguida é natural: o que o aperto de mão tem a ver com o coração?

Tem uma relação, medida em centenas de milhares de adultos. Mas é uma relação de sinal, não de causa, e vale entender a diferença antes de transformar um número em susto ou em tranquilidade.

O que você vai encontrar aqui

  • O que o estudo PURE mediu em cerca de 140 mil adultos de 17 países e o que ele encontrou.
  • O que uma segunda coorte, de meio milhão de pessoas no Reino Unido, acrescentou.
  • Por que associação não é causa, e por que a mão funciona como marcador de saúde geral.
  • O que fazer com o seu número, e por que força caindo durante a perda de peso merece uma conversa com o médico.

Ao fim, o aperto de mão vira o que é: um sinal para conversar, não um diagnóstico.

Força da mão e coração: o que o estudo PURE mediu

O PURE (Prospective Urban Rural Epidemiology) acompanhou adultos de 35 a 70 anos em 17 países de rendas diferentes. A análise sobre força de preensão, de Leong e colaboradores, saiu no The Lancet em 2015.

Entraram na análise 139.691 pessoas, com a força medida por um dinamômetro Jamar. Num seguimento mediano de 4 anos, 3.379 (2%) morreram. Depois de ajustar para outros fatores, apareceu uma relação inversa. Para cada 5 kg a menos de força de aperto, o risco subia assim:

  • 16% para morte por qualquer causa (razão de risco 1,16; intervalo de confiança de 95%: 1,13 a 1,20).
  • 17% para morte cardiovascular (1,17; 1,11 a 1,24).
  • 7% para infarto (1,07; 1,02 a 1,11).
  • 9% para AVC (1,09; 1,05 a 1,15).

Nesse estudo, a força de preensão previu a mortalidade total e a cardiovascular melhor do que a pressão sistólica. E não se associou de forma significativa a diabetes novo, a lesão por queda nem a fratura.

O que o UK Biobank acrescentou

Celis-Morales e colaboradores publicaram no BMJ, em 2018, a análise de 502.293 adultos de 40 a 69 anos, acompanhados em média por 7,1 anos. A direção foi a mesma. Para cada 5 kg a menos de força, a razão de risco para morte por qualquer causa foi 1,20 nas mulheres e 1,16 nos homens, e para morte cardiovascular, 1,19 e 1,22.

Somada a um escore de risco de consultório, a força melhorou a previsão, mas pouco. Os autores concluem que falta estabelecer a utilidade clínica.

Associação não é causa: por que a mão serve de marcador

Aqui a leitura costuma escorregar. Os dois estudos são observacionais: mostram que as coisas andam juntas, não que uma provoca a outra. Os próprios autores do PURE escrevem que ainda é preciso testar se melhorar a força reduz a mortalidade e a doença cardiovascular.

Há explicações plausíveis para a mão funcionar como marcador, e nenhuma faz do aperto um alvo em si:

  • Reflexo do músculo todo. A força da mão tende a acompanhar a força e a massa muscular do corpo inteiro.
  • Reflexo da saúde geral. Doença crônica, inflamação, nutrição pobre e sedentarismo derrubam a força.
  • Causalidade ao contrário. Quem já está adoecendo, ainda sem diagnóstico, perde força, e o número só registra isso.

São leituras plausíveis, não resultados desses estudos. Os estudos não mostram que apertar pouco adoeça o coração, nem que apertar mais proteja. Na prática, o que me interessa é a direção do número ao longo dos meses.

O que o consenso de sarcopenia usa como corte

O consenso europeu de sarcopenia (EWGSOP2, 2019) adota, para força baixa, menos de 27 kg nos homens e menos de 16 kg nas mulheres. O critério existe para identificar fraqueza muscular, comum em adultos mais velhos, e funciona como sinal para conversar, não como diagnóstico.

A técnica e os valores estão em força de preensão da mão: dinamômetro e valores. Para a função das pernas, veja o teste de sentar e levantar cinco vezes.

Quando a força cai junto com o peso

Nos estudos das medicações para obesidade que mediram a composição corporal, uma parcela do peso perdido foi massa magra, e não gordura, como detalha perder peso e perder músculo não são a mesma coisa. A força da mão é uma forma simples de acompanhar a força muscular, que costuma andar junto com a massa magra, quando há dinamômetro disponível.

Três cuidados tornam o número útil: o mesmo aparelho, as mesmas condições e a repetição a cada dois ou três meses. O valor está na tendência.

Se a força cai de uma rodada para outra, sobretudo com cansaço, tontura ou dificuldade em tarefas que antes eram simples, leve isso ao seu médico. Pode ser sinal de que o plano precisa de ajuste, e essa decisão é de quem acompanha.

Se durante qualquer teste de força aparecer dor no peito, falta de ar fora do comum, tontura ou dor em articulação, pare e converse com o médico antes de repetir. Dor no peito que não passa pede atendimento imediato (SAMU 192).

Um número que abre conversa, não que fecha diagnóstico

Um valor isolado não diz se o coração está bem nem se está mal. Leve o valor, a data, a mão usada e o aparelho à consulta, e pergunte o que ele significa no seu caso.

O essencial

  • No PURE, com 139.691 adultos em 17 países, cada 5 kg a menos de força de aperto se associou a 16% mais risco de morte por qualquer causa e 17% de morte cardiovascular.
  • No UK Biobank, com 502.293 adultos, a direção foi a mesma, e a força melhorou pouco a previsão de um escore de risco.
  • É associação: nenhum desses estudos mostrou que ganhar força de aperto reduz o risco.
  • Durante a perda de peso, a tendência do número, com o mesmo aparelho, vale mais do que um valor sozinho.
  • Força caindo com cansaço ou tontura é informação para levar ao médico.

O que ainda não se sabe

Não há, nos estudos citados aqui, prova de que melhorar a força de aperto reduza infarto ou mortalidade. Também não está claro quanto ela acrescenta ao que o cardiologista já mede. E os dois estudos foram feitos na população geral, não em quem emagrece com medicação, então não dizem o que fazer quando a força cai nessa fase.

Nada aqui substitui uma consulta. Cada caso tem história, exames e outros remédios em uso, e é isso que decide a conduta. Sobre o que os ensaios mediram do tratamento no coração, veja caneta emagrecedora e coração.

Referências

  • Leong DP, Teo KK, Rangarajan S et al. Prognostic value of grip strength: findings from the Prospective Urban Rural Epidemiology (PURE) study. Lancet. 2015;386:266-273. doi:10.1016/S0140-6736(14)62000-6.
  • Celis-Morales CA, Welsh P, Lyall DM et al. Associations of grip strength with cardiovascular, respiratory, and cancer outcomes and all cause mortality: prospective cohort study of half a million UK Biobank participants. BMJ. 2018;361:k1651. doi:10.1136/bmj.k1651.
  • Cruz-Jentoft AJ, Bahat G, Bauer J et al. Sarcopenia: revised European consensus on definition and diagnosis (EWGSOP2). Age Ageing. 2019;48(1):16-31. doi:10.1093/ageing/afy169.

Dr. Rogério Silva. Cardiologista, especialista em Clínica Médica, pós-graduado em Neurociência e Psicologia Positiva, com formação em cardionutrologia. Autor de A Dor que os Exames Não Mostram. @drrogeriosilvacardio

Este conteúdo é informativo e não substitui a consulta médica. Cada caso exige avaliação individual. Responsável técnico: Dr. José Rogério da Silva, CRM-SP 172.346 · RQE 78622.

Perguntas frequentes

A força do aperto de mão tem relação com infarto?

Tem uma associação. No PURE, cada 5 kg a menos de força se associou a 7% mais risco de infarto (razão de risco 1,07) e a 9% mais risco de AVC (1,09), sem provar que a fraqueza causa o infarto.

Aperto de mão fraco quer dizer que vou ter problema no coração?

Não. Os números descrevem grupos grandes, não uma pessoa. Um valor baixo é um sinal para conversar com o médico, que considera o restante do quadro.

Treinar a força da mão reduz o risco cardiovascular?

Ainda não se sabe. Os autores do PURE dizem que falta testar se melhorar a força reduz a mortalidade e a doença cardiovascular.

Por que a força da mão se relaciona com a saúde geral?

A leitura mais plausível é que ela reflete a força e a massa muscular do corpo todo, e que doença crônica, inflamação e sedentarismo reduzem a força. São leituras, não resultados demonstrados.

Devo me preocupar se a força caiu durante a perda de peso?

Vale levar ao médico, sem alarme. A queda de força, sobretudo com cansaço ou tontura, pode ser sinal de que o plano precisa de ajuste, e quem decide é o médico que acompanha.

Guia do Dr. RogérioAntes da CanetaAs páginas de valor que deveriam vir na caixa.Existe uma fase antes da primeira dose. Quase todo mundo pula.Conhecer o guia

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