Dr. Rogério Silva, médico cardiologista e cardionutrologista
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Mesa de cozinha à noite com xícara de chá, caderno fechado e luz de abajur, cena sobre quem deixou de comer por emoção e agora precisa de outro tipo de apoio.
Hábitos

Quando a comida deixa de consolar: quem cuida da emoção durante o tratamento

Quando a comida deixa de consolar: quem cuida da emoção durante o tratamento

A pergunta chega de vários jeitos. A pessoa parou de comer por emoção, e agora bebe um pouco mais, compra mais, dorme pior ou fica mais irritada. Ela quer saber se isso é esperado e se precisa de um psicólogo.

Existe uma explicação simples, e ela vale tanto para quem tem medo quanto para quem culpa a si mesmo: a medicação age sobre o apetite, ela não sabe por que a pessoa comia. Quando a comida deixa de consolar, a emoção continua onde estava.

O que você vai encontrar aqui

  • Por que a medicação reduz a fome e deixa o motivo de comer no mesmo lugar.
  • O que a pesquisa sabe, e o que ainda não sabe, sobre a emoção procurar outra saída.
  • Quais sinais levar ao médico, e quando entram o psicólogo e o psiquiatra.
  • O que fazer esta semana e qual telefone ligar numa crise.

A ideia é que você saiba reconhecer o que está acontecendo e pedir ajuda sem culpa.

Quando a comida deixa de consolar, para onde vai a emoção

Os análogos de GLP-1 agem sobre a saciedade, o esvaziamento do estômago e o valor de recompensa da comida. Isso é bastante, e muita gente relata que o pensamento sobre comida ficou mais silencioso.

Mas o alvo continua sendo o apetite. Para quem usava a comida como consolo para o cansaço, a ansiedade ou a solidão, a fome some e o consolo não foi substituído por nada. A emoção segue ali, agora sem o recurso de sempre. Ela pode pesar mais, e pode procurar outra saída: bebida, compras, telas, sono desregulado, irritação, piora da ansiedade ou do humor.

Isso é uma hipótese clínica, e não uma regra. Nem todo mundo troca de saída. Mas é uma possibilidade conhecida o bastante para ser perguntada na consulta, e a base da conversa está em fome emocional, cortisol e o limite do que a caneta resolve.

O que a pesquisa sabe sobre a emoção trocar de saída

A evidência mais antiga vem da cirurgia bariátrica, e é mista.

No estudo LABS-2, publicado no JAMA em 2012 por King e colaboradores, 1.945 pessoas operadas em 10 hospitais dos Estados Unidos foram acompanhadas com o questionário AUDIT, que rastreia problemas com álcool. Entre as 1.400 com os três questionários, os sintomas de transtorno por uso de álcool apareciam em 7,6% antes da cirurgia, em 7,3% no primeiro ano e em 9,6% no segundo. O aumento concentrou-se em quem fez bypass gástrico, com chance mais que o dobro da de quem usou a banda. O estudo não tinha grupo de comparação sem cirurgia, e os próprios autores apontam isso como limite.

Uma metanálise de 10 estudos, de 2018, não achou diferença no primeiro nem no segundo ano e viu o problema com álcool subir a partir do terceiro, ligado ao bypass e não à banda.

Com a caneta, o quadro é outro, e é honesto dizer que ainda é incerto. Nenhum estudo foi desenhado para medir se a emoção troca de saída durante o tratamento. O que existe, sobre o álcool, aponta em média para menos consumo ou para nenhuma mudança, e não para mais:

  • Num ensaio de fase 2 publicado no JAMA Psychiatry em 2025, com 48 adultos com transtorno por uso de álcool que não buscavam tratamento, a semaglutida por 9 semanas reduziu o consumo num teste de laboratório e o desejo semanal.
  • Num ensaio publicado no Lancet em 2026, com 108 adultos com transtorno por uso de álcool e obesidade, a semaglutida por 26 semanas reduziu mais os dias de consumo pesado do que o placebo.
  • Uma metanálise de 2025, com 3 ensaios e 430 pessoas, viu menos consumo e menos desejo, mas sem diferença estatisticamente significativa, e classificou a certeza como baixa. Estudos observacionais sugeriram menos eventos ligados ao álcool, e esse tipo de estudo não prova causa.

São estudos de pesquisa em pessoas com transtorno por uso de álcool, e não indicação do medicamento para esse fim. A média não é a sua experiência. Quem percebe que bebe mais não está errado, e a informação importa para a consulta. Para compras, apostas e outros hábitos, não há estudo que permita afirmar nem descartar.

O que o álcool faz no estômago, no pâncreas e na glicose durante o tratamento está em quem faz tratamento pode beber.

Sinais que valem levar ao médico

Nenhum deles prova que a causa é a medicação. Todos pedem para ser contados, mesmo que tenham passado sozinhos.

  • Beber mais do que pretendia, ou beber para relaxar, dormir ou aguentar o dia.
  • Gastos, jogos ou outro hábito que escapa do controle e causa prejuízo.
  • Comer grande quantidade com sensação de perda de controle, ou comer escondido.
  • Tristeza ou irritação na maior parte dos dias por mais de duas semanas, com perda de interesse, como em depressão e coração.
  • Ansiedade que piorou, ou sono muito alterado, como em ansiedade e coração.

Pensamentos de se machucar ou de que não vale a pena viver não esperam consulta. O que fazer está na seção sobre o que fazer esta semana e quem chamar numa crise.

Quando entra o psicólogo e quando entra o psiquiatra

O psicólogo conduz a psicoterapia. É o profissional que trabalha o motivo, o padrão e a forma de lidar com a emoção, e faz sentido quando o comer emocional, a ansiedade ou outro hábito aparecem de forma repetida. Pode entrar antes de qualquer problema: perguntar "quem cuida da parte emocional?" já na primeira consulta é uma boa pergunta.

O psiquiatra é médico. Avalia o diagnóstico e decide sobre medicação quando há depressão, ansiedade intensa, transtorno de compulsão alimentar, uso problemático de álcool ou risco. Ele também confere a interação com os outros remédios em uso.

Os dois não competem, e procurá-los não significa que o tratamento falhou. O médico que acompanha a caneta organiza a equipe e decide o ritmo do tratamento. Pelo SUS, a unidade básica e os Centros de Atenção Psicossocial (CAPS) atendem saúde mental e uso de álcool.

O que fazer esta semana, e quem chamar numa crise

Anote, por alguns dias, o que aconteceu antes de cada episódio: a hora, a emoção e o que você fez. Leve a anotação à consulta e diga a frase que costuma ficar guardada. Isso muda a conduta, e às vezes muda a equipe.

Se a tristeza vier com pensamentos de morte, ou se você sentir que não aguenta, não espere a consulta. O CVV atende pelo 188, gratuitamente, 24 horas por dia, por telefone, chat e e-mail. Em perigo imediato, ligue para o SAMU, 192, e não deixe quem está em crise sozinho.

O essencial

  • A medicação age sobre o apetite, e não sobre o motivo de comer.
  • Quando a comida deixa de consolar, a emoção pode procurar outra saída, mas isso é possibilidade e não regra.
  • A transferência de comportamento tem evidência mista na cirurgia bariátrica, e com a caneta ainda é incerta.
  • Sinais como beber mais, perder o controle de hábitos ou piora do humor devem ser informados ao médico, mesmo que tenham passado sozinhos.
  • Psicólogo e psiquiatra cuidam de partes diferentes, e procurá-los não significa que o tratamento falhou.

O que ainda não se sabe

Falta um estudo desenhado para acompanhar, durante o uso da caneta, o que acontece com álcool, compras e outros hábitos em quem comia por emoção. Os ensaios com álcool foram feitos em pessoas com transtorno já diagnosticado, e não respondem pela população geral.

Nada aqui substitui uma consulta. Cada caso tem história, contexto e sofrimento próprio, e é isso que decide a conduta.

Referências

  • King WC et al. Prevalence of alcohol use disorders before and after bariatric surgery. JAMA. 2012;307(23):2516-2525. doi:10.1001/jama.2012.6147.
  • Azam H, Shahrestani S, Phan K. Alcohol use disorders before and after bariatric surgery: a systematic review and meta-analysis. Ann Transl Med. 2018;6(8). doi:10.21037/atm.2018.03.16.
  • Hendershot CS et al. Once-weekly semaglutide in adults with alcohol use disorder: a randomized clinical trial. JAMA Psychiatry. 2025;82(4):395-405. doi:10.1001/jamapsychiatry.2024.4789.
  • Klausen MK et al. Once-weekly semaglutide versus placebo in patients with alcohol use disorder and comorbid obesity. Lancet. 2026;407(10540):1687-1698. doi:10.1016/S0140-6736(26)00305-3.
  • Sinha B, Ghosal S. The effects of glucagon-like peptide-1 receptor agonists (GLP1-RAs) on alcohol-related outcomes: a systematic review and meta-analysis. Addict Sci Clin Pract. 2025;21:8. doi:10.1186/s13722-025-00637-z.
  • Ministério da Saúde. Prevenção do suicídio e CVV 188. gov.br/saude.

Dr. Rogério Silva. Cardiologista, especialista em Clínica Médica, pós-graduado em Neurociência e Psicologia Positiva, com formação em cardionutrologia. Autor de A Dor que os Exames Não Mostram. @drrogeriosilvacardio

Este conteúdo é informativo e não substitui a consulta médica. Cada caso exige avaliação individual. Responsável técnico: Dr. José Rogério da Silva, CRM-SP 172.346 · RQE 78622.

Perguntas frequentes

É esperado beber mais ou comprar mais depois que parei de comer por emoção?

É possível, e não é regra. Na cirurgia bariátrica há dados de aumento de sintomas de álcool a partir do segundo ou do terceiro ano, e com a caneta o quadro ainda é incerto. Se acontecer, é informação clínica: avise o seu médico.

A caneta aumenta o risco de eu beber mais?

Nos ensaios, em pessoas com transtorno por uso de álcool, os resultados apontaram para menos consumo e menos desejo, e não para mais, com certeza baixa. São estudos pequenos, e a experiência individual pode ser diferente da média. Conte ao médico o que você percebe.

Preciso de psicólogo para fazer o tratamento?

A medicação não exige. Mas definir logo no início quem cuida da parte emocional costuma facilitar, sobretudo para quem comia por emoção.

Quando devo procurar um psiquiatra?

Quando houver tristeza ou irritação na maior parte dos dias por mais de duas semanas, ansiedade intensa, perda de controle com a bebida ou com a comida, ou qualquer pensamento de se machucar.

O que fazer se eu sentir que não aguento?

Ligue para o CVV, no 188, a qualquer hora, ou procure um serviço de urgência. Se houver perigo imediato, ligue para o SAMU, 192, e não fique sozinho.

Guia do Dr. RogérioAntes da CanetaAs páginas de valor que deveriam vir na caixa.Existe uma fase antes da primeira dose. Quase todo mundo pula.Conhecer o guia

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